Histria da LITERATURA


TOLSTOI 


Sonata a Kreutzer

Traduo de
Jorge Reis


EDITORES
(c) do editor original: Guimares, Editores
(c) da presente edio: Editores Reunidos, Lda., 1994 e RBA
Editores, S.A. ISBN: 972-747-119-6 Depsito legal: 80088/94 

Depsito legal: B.1705-1995
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(Barcelona)
Printed in Spain - Impresso em Espanha


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Estvamos no princpio da Primavera. Havia dois longos dias, e
uma no menos longa noite que viajvamos de comboio.
Em todas as estaes, passageiros entravam ou saam do nosso
compartimento. Por fim ficaram s trs viajantes: uma senhora
de meia-idade, feies envelhecidas e feia, de cigarro na
boca, gorro na cabea, e um casaco de corte masculino; um
amigo alegre que aparentava quarenta anos, com bagagens novas
e elegantes; e, afastado de todos, um homem baixo, de
movimentos nervosos; no era velho e os cabelos embranquecidos
antes de tempo, ainda se conservavam ondulados. Tinha uns
olhos brilhantes e de extrema mobilidade. Vestia um casaco
coado, com gola de cordeiro e com a marca de um bom alfaiate;
na cabea, gorro alto da mesma pele. Sob o casaco, quando o
desabotoava, via-se colete comprido e blusa russa bordada.
Tinha ainda outra particularidade. De vez em quando, soltava
sons estranhos que se assemelhavam a um soluo ou a um riso
abafado.
Durante toda a viagem no dirigiu a palavra a qualquer dos
passageiros. Lia, fumava, ou olhava pela janela; bebia ch,
comia po com manteiga que tirava de um saco velho de couro.
Se lhe dirigiam a palavra, as respostas eram breves e secas e
o seu olhar ia perder-se na paisagem fugidia. Notei, contudo,
que a solido lhe pesava. Tentei, por vrias vezes, falar-lhe.
Parecia adivinhar o meu pensamento, e quando os nossos olhares
se encontravam - o que era frequente, pois ocupvamos lugares
fronteiros - desviava o olhar e enfronhava-se na leitura. Ao
cair da noite o comboio parou numa estao importante. O
senhor de cabelos brancos desceu para ir buscar gua a ferver
e fazer ch novo.
O homem das malas novas e elegantes - um advogado - desceu com
a sua companheira para ir ao bufete tomar uma chvena de ch.
Novos passageiros subiram, um velho alto com a barba feita de
fresco e a fronte sulcada de rugas, um negociante
sem dvida - envolto numa pelica de lontra, a cabea coberta
por um bon de grande pala. Sentou-se no lugar em frente da
companheira do advogado e entabulou imediatamente conversa com
um rapaz novo, tipo de caixeiro--viajante, que entrara na
mesma carruagem e na mesma estao.
Eu estava perto deles e com o comboio parado pude ouvir alguns
trechos da conversa... Falaram da viagem, do comrcio, de uma
pessoa que ambos conheciam e, por ltimo, de Nijni-Novgorod.
O caixeiro quis contar o casamento de um negociante conhecido
de ambos, mas o velho interrompeu-o para descrever as pndegas
em que outrora tomara parte em Kou-navino. Evocava essas
recordaes com certo desvanecimento, persuadido de que essas
histrias em nada prejudicavam nem o seu brio nem a sua
dignidade. Orgulhoso dessas faanhas contava, como um dia, em
Kounavi-no, estando embriagado, se entregara a tal orgia, que
s ao ouvido podia ser contada. O caixeiro, ao ouvir a
confidncia, riu desabaladamente e, o velho, ria tambm,
mostrando dois dentes amarelados.
A conversa no tinha interesse para mim. Desci para
desentorpecer as pernas enquanto no dava o sinal da partida.
Na gare encontrei o advogado e a sua companheira, conversando
animadamente.
- No se demore - disse ele -, o comboio vai partir.
Efectivamente, mal eu atingira a cauda do comboio, deram o
segundo sinal.
Quando subi para a carruagem, o advogado e a sua cliente
prosseguiam a conversa animadssimos. O velho negociante
sentado em frente deles no dizia uma palavra, olhando-os com
ar severo e desdenhoso. Quando eu passava, o advogado dizia,
sorrindo:
- Ela ento declarou ao marido que no podia, nem queria,
continuar a viver com ele, tendo-se dado o caso...
No ouvi o resto. Passava o revisor e entravam mais
passageiros. Restabelecido o silncio, ouvi novamente a voz do
advogado, e pareceu-me que a conversa se desviara, de um caso
particular, para consideraes gerais. O advogado observava
que, a questo do divrcio interessava hoje toda a Europa e
que na Rssia, os casos eram cada vez mais frequentes. Sorriu
ao notar que era o nico a falar e, voltando-se para o
comerciante, perguntou-lhe:
- Era questo que no existia nos bons tempos de outrora, no
 verdade?
O comboio ps-se em movimento. Sem responder, o velho
descobriu-se, persignou-se, murmurou uma orao em voz baixa,
enterrou o bon at s orelhas e disse:
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- Existia... mas menos. Hoje no pode ser de outro modo. As
pessoas instruem-se de mais.
O advogado replicou. Mas o barulho do comboio, que aumentava
de velocidade, impediu-me de perceber. Aproximei-me cheio de
curiosidade para ouvir a resposta do velho. A conversa parecia
interessar tambm o meu vizinho - o senhor de olhos brilhantes
- que prestava toda a ateno, embora no abandonasse o seu
lugar.
- Que culpa tem a instruo? - perguntou a senhora, esboando
um sorriso. - Era melhor o casamento quando os noivos mal se
conheciam? - continuou ela, respondendo: - hbito frequente
entre as mulheres - no aos argumentos apresentados mas
queles que podiam ter sido.
- Amavam-se? Poder-se-iam amar? No o sabiam. A mulher
desposava o primeiro que aparecia e habilitava-
-se, assim, a uma vida de tormento. Isto era prefervel?
- concluiu, dirigindo-se, mais ao advogado e a mim, do que ao
velho com quem principiara a discusso.
- Nos nossos dias h demasiada instruo - repetiu o velho,
respondendo  pergunta e olhando desdenhosamente.
- Gostava de ouvi-lo explicar a ligao entre a instruo e as
desavenas conjugais - disse o advogado, disfarando um
sorriso.
O comerciante ia responder, mas a senhora interrompeu-o:
- Esse tempo acabou.
- Permita que este senhor exponha as suas ideias - disse o
advogado.
- Todas as tolices vm da instruo - disse o velho em tom
categrico.
- Como podem entender-se pessoas que se no amam?
- apressou-se a perguntar a senhora, olhando para o advogado,
depois para mim e para o caixeiro que, de p, encostado ao
banco, seguia, sorridente, a discusso.
- S os animais se podem acasalar, segundo a vontade do dono;
os homens tm as suas inclinaes, as suas simpatias - disse
ela com a inteno de ferir o negociante.
-  um erro, minha senhora - disse o velho. - O animal  um
animal; ao homem foi dada uma lei.
- Mas como pode o homem viver sem amor? - replicou a senhora,
convencida que emitia ideias originais.
- Modernismos - teimou o velho. - Outrora no se pensava em
tal. Hoje,  mais leve questo, a mulher moderna declara ao
homem que o deixa; e at as camponesas atiram com as camisas e
as pegas ao marido para se lanarem nos braos de outro
homem, por ter o cabelo
mais frisado... De que servem palavras? O dever da mulher 
respeitar o marido, o nico sentimento que a mulher deve
sentir  o temor.
O caixeiro olhou para o advogado, para a senhora e para mim,
reprimindo um sorriso, pronto a ridicularizar ou a aplaudir as
palavras do comerciante, segundo a nossa atitude.
- Mas que temor? - perguntou a senhora.
- Eu explico... "As mulheres estejam sujeitas a seus maridos".
- Meu caro senhor, esse tempo j Ia vai...
- No tanto como parece, minha senhora. Eva, a primeira
mulher, nasceu de uma costela do homem e assim permanecer at
ao fim do mundo.
Disse isto, sacudindo a cabea, num gesto to triunfante e to
severo que o caixeiro lhe concedeu os louros da vitria,
fazendo ouvir uma sonora gargalhada.
- Eis a maneira de os homens julgarem - disse a mulher, no
querendo dar-se por vencida. - Querem a liberdade para si e a
escravido para a mulher. Aos homens tudo  permitido, no 
assim?...
- O homem  outro caso...
-  essa a sua opinio?...
- Ao homem tudo  permitido?...
- Ningum diz tal. O mau comportamento do homem no atinge a
famlia. A mulher  frgil como o vidro - continuou ele. O
calor das suas palavras convenceu os que o ouviam; mas a
senhora no se deu por vencida e continuou: - No entanto a
mulher  pessoa humana, tem sentimentos como o homem. Que
h-de fazer, se no amar o marido?
- No amar o marido?... - gritou o velho. - Aprender a
am-lo. No receie...
Esta concluso imprevista encantou o caixeiro que teve um
murmrio de aprovao.
- Engana-se. Nunca aprender. O amor no se impe.
- E se a mulher enganar o marido? - perguntou o advogado.
-  questo que se no pode pr - disse o velho. - Esteja-se
atento.
- Mas se, apesar de tudo, o facto se der? So coisas que podem
acontecer...
- Noutros meios isso pode acontecer; no nosso no - disse o
velho.
Todos se calaram. O caixeiro parecia agitado; aproximou-se
mais e no querendo deixar de tomar parte na conversa disse
com o seu eterno sorriso:
- Um dos meus amigos foi vtima de um escndalo
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bem triste. A mulher, leviana, comeou a fazer das suas. O
marido era instrudo e srio. O primeiro amante da mulher foi
o caixeiro-viajante O marido tentou lev-la ao bom caminho,
admoestando-a brandamente. Ela no fez caso e desceu o mximo;
comeou a roubar-lhe dinheiro. Ele bateu-lhe. A situao
agravou-se. Entregou-se a um judeu e depois a outros... Que
podia ele fazer? Expulsou-a de casa, de uma vez para sempre.
Ela agora corre mundo e ele vive solteiro.
- Era um imbecil - disse o velho. - Se ele tem sabido dom-la
desde o princpio ainda hoje a teria em casa.  preciso ter
sempre as rdeas altas, em casa,  mulher, na estrada ao
cavalo.
Neste momento entrou o revisor para controlar os bilhetes,
antes da prxima estao. O velho entregou o seu e continuou:
- Pode crer, as mulheres devem ser refreadas a tempo, de
contrrio est tudo perdido.
- Isso no impede que se divirta com as raparigas bonitas de
Kounavino - disse o advogado, com um sorriso irnico.
- O senhor afasta-se da questo - replicou friamente o
comerciante e manteve-se num silncio absoluto.
Da a pouco ouviu-se um apito agudo. O comboio parava. O velho
ergueu-se, embrulhou-se na pelica, levou a mo ao bon e
desceu.
II
Apenas o velho saiu, travou-se animada conversa.
- Um homem do Velho Testamento - disse o caixeiro.
- Um verdadeiro Demostoroi - disse a senhora. - Que ideias
atrasadas sobre o casamento!...
- Estamos ainda longe de ter sobre o casamento as ideias do
resto da Europa - disse o advogado
- No  possvel fazer compreender a esta gente - interrompeu
a senhora - que s o amor consagra o casamento e, que, s o
casamento consagrado pelo amor  realmente legtimo.
O caixeiro sorria atento, desejando reter na memria, quanto
possvel, estas inteligentes opinies, para as emitir em
ocasio oportuna.
No meio da tirada da senhora, atrs de mim, ouviu-se um som
semelhante a uma gargalhada ou a um soluo. Quando me voltei
vi o meu vizinho, o senhor solitrio de cabelos brancos e de
olhar brilhante que, aparentemente interessado, se tinha
aproximado, durante a discusso, sem que dssemos por isso.
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Estava de p, apoiando as mos no estofo do banco,
visivelmente comovido, a face congestionada e estremecendo-lhe
um dos msculos.
- Que amor  esse que consagra o casamento? - perguntou.
- Que amor?... - repetiu a senhora. - O amor conjugal que
santifica o casamento. O verdadeiro amor. Se esse amor existe
entre o homem e a mulher o casamento  possvel.
- Est bem. Mas o que entende por verdadeiro amor? - disse
timidamente o senhor de olhar brilhante, com um sorriso
contrafeito
- Todo o mundo o sabe! - disse a senhora, declarada-mente
desejosa de interromper a conversa.
- Pois eu desconheo tal amor - disse o senhor - e gostava que
me explicasse o que entende por verdadeiro amor.
- Como?...  uma coisa bem simples - disse a senhora. E
reflectindo um instante acrescentou: - O amor  a predileco
exclusiva de um homem ou de uma mulher pelo indivduo de sexo
diferente.
- Por quanto tempo essa predileco? Por um ms? Por dois
dias? Por meia hora? - perguntou o senhor de cabelos brancos,
desatando a rir.
- Quer dizer - interveio o advogado, designando a senhora -
que o casamento deve ter origem numa afeio, no amor, se voc
quiser, e, que, se realmente o amor existe, e somente nesse
caso, o casamento tem alguma coisa de sagrado. Compreendi o
seu pensamento, minha senhora?
A senhora aprovou com a cabea este esclarecimento.
- Depois disto... - retomou o advogado, seguindo o curso do
seu raciocnio. Mas o primeiro senhor, que tinha agora os
olhos brilhantes e se continha com manifesta dificuldade, sem
deixar o advogado acabar, comeou:
- Eu falo precisamente dessa predileco de um homem por uma
mulher ou de uma mulher por um homem entre todos ou todas. Mas
pergunto simplesmente: Predileco por quanto tempo?
- Por quanto tempo? Por muito... por toda a vida... - disse 
senhora, sacudindo os ombros.
- Nos romances, talvez. Na vida real, nunca.  muito raro essa
preferncia durar anos. Na maioria dos casos, dura meses,
semanas, dias, ou mesmo horas.
Ele sabia que estas opinies, evidentemente, espantavam todos
e sentia-se satisfeito.
- No, no  verdade - disseram todos. O prprio
caixeiro-viajante teve um gesto de aprovao.
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- Eu sei... Os senhores falam do que deveria ser. Eu falo do
que realmente . Todo o homem sente o que os senhores chamam
amor, por qualquer mulher bonita.
-  horrvel o que o senhor diz. O amor existe, e dura, no s
meses, no s anos, mas toda a vida.
- No. No  verdade. Mesmo admitindo que um homem prefira uma
mulher toda a vida, essa mulher preferir outro. Foi sempre
assim e assim continuar a ser.
Pegou na cigarreira, tirou um cigarro e acendeu-o.
- Mas a reciprocidade existe - disse o advogado.
- No.  to impossvel como encontrarem-se num vago cheio de
gros, dois gros previamente marcados. Amar um homem, ou amar
uma mulher toda a vida  teimar que uma vela acesa pode arder
eternamente - concluiu ele, aspirando avidamente o fumo do
cigarro.
- Mas o senhor refere-se somente ao amor carnal. No admite o
amor nascido da comunho de um mesmo ideal, de afinidades
espirituais? - disse a senhora.
- Afinidades espirituais?... Comunho de ideal? - repetiu ele,
emitindo o gemido que lhe era peculiar. - Ter o mesmo ideal
no  razo para ter o mesmo leito.
- Os factores provam o contrrio - disse o advogado. - O
casamento existe, no s entre ns, mas na maioria dos povos,
e, muitos casais vivem durante muito tempo unidos e felizes.
O senhor de cabelos brancos riu novamente.
- Perdo. O senhor afirmou que o amor  a base do casamento.
Eu emito a dvida da existncia de outro amor, que no seja o
amor sensual e o senhor d-me como prova que o casamento
existe. Mas esse casamento no nosso tempo no  seno uma
impostura.
- Perdo!... - disse o advogado. - Eu disse que houve e h
ainda casamentos.
- De acordo. Mas porqu? Porque h ainda pessoas que
consideram o casamento como um acto sacramental, um lao
perante Deus. Para aqueles que assim pensam, o casamento
existe realmente. Mas s para esses.
"Entre ns os homens casam sem considerar o casamento outra
coisa que no sejam benefcios materiais ou de ordem sexual; e
a ligao tende ento ou para a fraude ou para o
constrangimento. Quando  fraude  fcil de suportar...
"Ento o marido e a mulher procuram fazer acreditar aos outros
que vivem em monogamia/ quando, de facto, vivem na poligamia
ou poliandria.  repugnante. Mas quando isto acontece, e d-se
muitas vezes, tomam como obrigao exterior viverem juntos
toda a vida, quando desde o segundo ms se odeiam, nesse
tremendo inferno
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que leva muitos ao suicdio,  embriaguez, a fazer
desaparecer, e envenenar o companheiro ou a companheira - isto
disse o senhor de cabelos brancos apressadamente, sem dar
tempo a que ningum abrisse a boca e entusiasmando-se cada vez
mais.
Todos se calaram. Ningum estava  vontade.
- De facto h momentos de crise na vida conjugal - disse o
advogado para interromper uma conversa mais acalorada do que
conveniente.
- Voc reconheceu-me, pelo que vejo - disse o senhor de
cabelos brancos com uma voz delicada e apaziguadora. - No.
No tenho esse prazer.
- No deve ser grande o prazer. Eu sou Pozdnychev, que
atravessou na sua vida conjugal um desses momentos de crise a
que voc fez referncia; momento to crtico que matei a minha
mulher - disse ele, fitando rapidamente cada um de ns.
Ningum encontrou palavras para responder; todos se calaram.
- E o mesmo - disse ele, produzindo aquele som mistura de
soluo e de gargalhada. - Perdoem-me, no quero incomod-los!
- De maneira nenhuma. Esteja a sua vontade!... - disse o
advogado sem saber ao certo porque dizia aquele " vontade".
Mas Pozdnychev virou-se bruscamente e foi de novo sentar-se no
seu lugar. O senhor e a senhora comearam a cochichar. Eu
estava sentado, ao lado de Pozdnychev e conservava-me calado,
sem saber o que havia de dizer.
Havia j pouca luz. Fechei os olhos, fingindo que queria
dormir. Chegmos assim  estao seguinte.
Durante a paragem o senhor e a senhora passaram para uma outra
carruagem; tinham previamente combinado a mudana com o
revisor. O caixeiro instalou-se comodamente e deixou-se
dormir...
Quanto a Pozdnychev, no parava de fumar e beber ch, que
havia preparado na estao anterior. Quando abri os olhos e
olhei para ele, voltou-se subitamente para rnim e com um ar ao
mesmo tempo resoluto e exasperado perguntou-me:
- Certamente lhe  muito desagradvel ficar sentado ao p de
mim, sabendo quem eu sou. Se voc quiser, vou--me embora.
- No se v embora, pelo amor de Deus!
- Quer ento tomar uma chvena de ch? Est muito forte.
Serviu-me o ch.
- Eles dizem... No fazem outra coisa seno mentir - disse
ele.
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- De que  que est a falar? - perguntei-lhe.
- Sempre da mesma coisa, desse amor de que eles falam e do que
ele  na realidade. Tem sono?
- Nenhum.
- Ento, se me d licena, vou contar-lhe como por esse amor
eu fui arrastado ao crime.
- Se lhe no custa contar-me a histria...
- O que custa  calar-me. Sirva-se de ch. Est talvez muito
forte...
Estava realmente muito forte. Parecia tinta de escrever; no
entanto, tomei um copo.
Neste momento entrou de novo o revisor. O meu companheiro
seguiu-o com um olhar sombrio e s comeou a histria quando o
outro desapareceu.
III
- Contar-lhe-ei a minha histria, se, realmente, a voc lhe
interessa.
Repeti-lhe que a desejava ouvir.
Calou-se por momentos. Passou a mo pela cara e comeou:
- Antes de me casar eu fazia a vida que fazem todos os rapazes
do nosso meio. Era proprietrio. Estudava na Universidade. Meu
pai era da alta nobreza. Como todos os homens do nosso meio
vivia amoralmente, convencido de que vivia como deve viver um
homem do nosso meio. Pensava, de mim para mim, que era um
rapaz encantador e de uma excelente moralidade. No era um
sedutor, e no tinha hbitos contra a natureza; nem tinha como
fim ltimo da minha existncia os prazeres da carne - o que
acontecia com a maior parte dos rapazes da minha idade.
Procedia com medida e decncia, sempre preocupado com a sade.
Evitei relaes que pudessem ter consequncias srias, filhos
ou grandes afeies. Talvez tivesse havido filhos e mesmo
ligaes com raparigas desinteressadas e srias, nunca me
interessou sab-lo; era como se nada tivesse acontecido. E no
s achava esse procedimento moral, mas at me sentia orgulhoso
dele.
Parou e emitiu aquele som particular que fazia todas as vezes
que lhe vinha uma ideia nova.
-  uma das piores infmias - gritou ele. - O desregramento
nunca  fsico; nenhuma desordem fsica  desregramento. O
desregramento, o verdadeiro desregramento consiste,
precisamente, no facto de nos libertarmos de todas as ligaes
morais com a mulher com que houve comrcio fsico. At ento
considerava uma alta virtude essa libertao. Lembro-me do
terror que senti no dia em
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que no paguei a uma mulher, verdadeiramente apaixonada por
mim e que se me entregou. S me tranquilizei quando lhe pude
enviar o dinheiro, porque s assim me sentia moralmente
desligado dela.
"No abane a cabea, como se voc fosse da minha opinio -
gritou ele, olhando para mim. - Conheo a cantiga. Vs todos,
e voc tambm, se no  uma excepo rara, vem as coisas como
eu as via. Perdoe-me, mas o facto  horrvel, horrvel,
horrvel!...
- Mas o que  horrvel? - perguntei-lhe.
- Este abismo de delrio em que vivemos com as mulheres. Eu
no posso falar calmamente; no  pelo que se deu, como disse
o outro, mas porque desde que se deu o caso, os meus olhos se
abriram e eu vejo com uma luz diferente. Tudo est ao
contrrio; tudo est ao contrrio...
Acendeu um cigarro e com os cotovelos apoiados nos joelhos
continuou a falar.
No escuro eu no podia ver-lhe a cara. Ouvia somente a sua voz
agradvel e convincente misturada ao rodar do comboio.
IV
- Foi s depois do suplcio que suportei e, s graas a ele 
que compreendi onde estava a raiz do mal. Compreendi o que
devia ser e, por conseguinte, vi todo o horror do que era.
Dir-lhe-ei como comeou o que me havia de levar ao momento
crtico da minha vida conjugal.
"Eu tinha dezasseis anos e frequentava o liceu; meu irmo mais
velho j era aluno do primeiro ano. Eu no era puro. Tinha
sido pervertido plos meus colegas, como acontece a todos os
rapazes da nossa sociedade.
"Sofria, como sofrem noventa e nove por cento dos nossos
rapazes. Andava aterrado; rezava, mas sucumbia. Tinha j o
pensamento corrompido mas ainda no transpusera o ltimo
passo.
"Foi ento que um camarada de meu irmo - bom rapaz -, por ser
o pior dos biltres (foi ele que nos ensinou a beber e a jogar)
nos persuadiu, depois de nos ter embebedado, a irmos a uma
casa de tolerncia. Meu irmo conspurcou-se nessa mesma noite.
Imitei-o, indiferente; nunca tinha ouvido dizer a ningum mais
velho e respeitvel serem infamantes actos, aqueles a que eu
assistira. E ningum talvez ainda hoje seja capaz de o dizer.
"E verdade que h os mandamentos. Mas voc sabe como os
mandamentos s servem para responder ao proco no dia dos
exames e  assunto considerado, na ordem dos conhecimentos,
inferior ao emprego do ut nas conjun-
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coes condicionais. Nunca ouvi a nenhuma das pessoas que
respeitava, dizer serem actos condenveis, e, pelo contrrio,
ouvi a pessoas que eu respeitava, dizer que no podia ser de
outro modo.
"Afirmaram-me que, depois, da iniciao os meus sofrimentos se
aplacariam. Ouvi defender muitas vezes essa teoria. Lia-a
muitas vezes e, os meus colegas, com a sua experincia,
asseguravam-mo.
"Os mais velhos diziam que era conveniente para a sade; e
consideravam-nos, at, uma demonstrao de virilidade.
"De modo que estes actos tinham muitas atenuantes.
"Perigos de contgio? De modo nenhum. O governo, cheio de
solicitude, prev e vigia o bom funcionamento das casas de
tolerncia e protege a depravao da juventude. Os prprios
mdicos acham bem, e afirmam que o desregramento moral 
proveitoso para a sade e, eles prprios, metodizam este
desregramento legalizado.
"H mes que, solcitas, cuidam desta parte da sade dos
filhos.
"E a cincia mesmo manda-os para as casas de tolerncia."
- A cincia? - perguntei eu.
- Quem so os mdicos? Sacerdotes da cincia.
"Quem perverte os jovens, afirmando que  necessrio para a
sade? Os mdicos.
"E logo a seguir curam as doenas consequentes das suas
receitas. E tudo isto com uma espantosa seriedade.
- Por que se no ho-de tratar essas doenas?
- Porque a centsima parte do esforo para acabar com as
doenas venreas devia ser empregada no combate ao
desregramento moral e, s ento, elas desapareceriam
totalmente.
"Mas o problema no consiste s nisto.
"O problema reside no facto que me aconteceu a mim, como
acontece em nove de dez rapazes, no somente do nosso meio,
mas mesmo entre os camponeses, o de se sucumbir ao encanto
natural de uma qualquer mulher.
"Sucumbi porque o meio que me rodeava - ao que de facto  uma
queda - consideravam uns uma funo legtima, necessria 
sade, outros uma distraco, a mais natural para um rapaz, a
mais perdovel, mesmo a mais inocente.
"No compreendi ento que era uma queda; e comecei a
entregar-me ao que era meio prazer, meio necessidade.
Entreguei-me a este desregramento como comecei a beber e a
fumar.
"Houve entretanto na primeira queda qualquer coisa
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de particular e de tocante. Lembro-me que depois de se ter
consumado o acto me senti profundamente triste.
Arrasaram-se-me os olhos de lgrimas, ao pensar na profanao
da minha inocncia, na eterna profanao das minhas relaes
normais com a mulher. No era o mesmo homem. Degradara-me.
Considerava-me como o fumador de pio ou como um bbedo. O
fumador de pio e o bbedo no so criaturas normais; e o
mesmo acontece ao homem que tem ligaes com vrias mulheres.
"Este homem poder lutar contra as suas paixes, ser em vo.
Nunca mais poder ter relaes fraternais, puras, com qualquer
rapariga.
"At pela maneira de olhar se conhece o homem devasso."
V
- Quando evoco as torpezas que at ento cometi, sinto-me
horrorizado! E pasmo da troa que faziam de mim, dos meus
escrpulos, os meus companheiros.
"Que juventude!... Oficiais, estudantes universitrios,
elegantes parisienses!... Quando penso no ar digno - com
trinta anos de devassido e a conscincia carregada de
milhentos crimes contra as mulheres - que tomamos ao entrar
numa sala de baile, muito correctos, bem barbeados e
perfumados, as camisas alvas de neve (emblema da pureza), de
casaca ou de uniforme! Que ridculo!
"Meditemos um instante no que , e no que devia ser.
"Quando um desses desgraados carregados de vcios se aproxima
das nossas filhas ou de alguma das nossas irms, ns - que
sabemos a vida que levam - devamo--nos aproximar e dizer-lhes
ao ouvido:
- "Meu caro amigo, conheo-te, sei como passas as noites e com
quem. O teu lugar no  aqui. Aqui s h raparigas puras.
Sai!"
"Eis o que devia ser. Eis o que . Quando um senhor desta
categoria faz a sua apario numa sala e dana, apertando nos
braos uma irm ou uma filha, rejubilamos, se ele  rico e
est bem aparentado.
"Conheo algumas raparigas da primeira sociedade que os pais
casaram com verdadeiros estropiados fsicos e morais... Que
coisa abominvel!
"Tempo vir em que todas estas abominaes sejam
desmascaradas."
E de novo fez ouvir o som que lhe era peculiar quando lhe
ocorriam pensamentos torpes. Voltou a tomar ch.
O ch estava horrivelmente forte e no havia gua. Sentia-me
agitadssimo. Certamente o ch produzia os mesmos efeitos
sobre o nosso homem. A sua agitao ia
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num crescendo terrvel. Mudava a cada instante de atitude; to
depressa tirava o bon, como o enterrava at s orelhas; a sua
fisionomia alterava-se estranhamente na penumbra que nos
envolvia. A voz tornava-se cada vez mais cantante e
expressiva.
- Assim vivi at aos trinta anos, sem contudo perder a ideia
de me casar com uma rapariga pura e realizar uma vida conjugal
perfeitamente s e nobre. Nessa ideia comecei a deitar as
minhas vistas para rapariga que me conviesse. E embora
continuasse a minha vida desregrada, atrevia-me a procurar
raparigas dignas de mim. Houve muitas raparigas que eu pus de
lado por no as achar perfeitamente puras para presidirem aos
destinos do meu lar.
"Por fim encontrei a filha de um proprietrio da provncia de
Penza que outrora fora muito rico e estava arruinado.
"Fomos dar um passeio de barco. Era uma noite de luar.
Sentei-me a seu lado onde podia admirar a beleza dos seus
cabelos caprichosamente ondulados, e as formas harmoniosas
modeladas pelo jersey. Naquele momento decidi escolh-la para
companheira do meu lar.
"Pareceu-me naquela noite que ela compreendia tudo o que eu
sentia e pensava. Os meus pensamentos eram nesse momento os
mais elevados e puros. Contudo, nada de extraordinrio se
passara; somente o seu jersey lhe moldava particularmente as
formas e os cabelos emolduravam-lhe graciosamente o rosto,
tornando-a encantadora. Desde esse momento desejei uma
aproximao mais ntima.
" estranha a iluso de que a beleza  o nico bem total!
"Se uma mulher bonita diz coisas estpidas, escutamo-
-la e, longe de a acharmos estpida, consideramo-la um
esprito brilhante. Ela no faz nem diz seno disparates, mas
ns achamo-la encantadora. E, quando no diz nem faz seno
parvoces, desde que seja bonita, persuadimo-
-nos de que ela  estupendamente inteligente e de uma estranha
moralidade.
"Voltei para casa convencido de que encontrara a perfeio.
Profundamente emocionado, decidi que seria esta, a minha
mulher.
"No dia seguinte pedia-a em casamento.
"Que confuso!... Em milhares de homens que se casam, no nosso
meio e infelizmente entre o povo, encon-trar-se-, talvez, um
que seja puro, que no tenha sido um outro D. Juan, antes do
casamento.
"H hoje rapazes, segundo creio, e pelo que ouo dizer e eu
prprio tenho observado, para quem o casamento no
19
 uma brincadeira, mas grande obra. Deus os ajude!... No meu
tempo, haveria um em dez mil. Todos o sabem, mas fingem
ignor-lo.
"Nos romances descrevem-se com todos os pormenores os
sentimentos dos heris, as suas faanhas, os seus devotamentos
s grandes causas, mas nunca se faz referncia s aces
infamantes cometidas por eles.
"Ao pintarem o amor dos heris por suas damas, nem de longe se
referem s humildes criaturas que serviram de divertimento a
essas extraordinrias personagens.
"Os romances que abordam esses assuntos so interditos s
raparigas a quem mais interessava dar a conhecer.
"Procura esconder-se das raparigas o cancro social que ocupa
metade da vida dos rapazes; depois habituamo-nos de tal modo a
uma vida de dissimulao que chegamos, como os Ingleses, a
convencermo-nos de que somos todos gente muito de bem e
vivemos num mundo moral.
"As raparigas acreditam em tudo isto. A minha desgraada
mulher, como de resto a maior parte das raparigas, acreditava
na pureza do sentimento.
"Quando ainda era noivo mostrei-lhe o dirio onde ela podia
descobrir uma parte da minha vida e, sobretudo, ter
conhecimento da minha ltima ligao, e de que entendi dever
falar-lhe para que o no viesse a saber por outros. Lembro-me
do seu horror, do seu desespero ao compreender do que se
tratava. Tenho a certeza de que, nesse momento, ela teve a
inteno de cortar comigo. Por que o no teria feito?..."
Repetiu o soluo estrangulado. Calou-se. Bebeu mais um gole de
ch.
VI
- Talvez no... Talvez fosse melhor assim. Recebi o castigo
merecido. Mas no  disso que se trata.
"Afirmo que na maioria dos casos, as raparigas so vil-mente
enganadas. As mes nada ignoram. Fingem acreditar na pureza
das intenes dos homens, mas procedem como quem no tem
iluses. Conhecem o anzol com que ho-de engodar os rapazes.
Os homens, esses, no vem, porque no querem ver. As mulheres
sabem perfeitamente que o amor, mesmo o mais elevado, o mais,
potico - como ns dizemos - depende mais dos dotes fsicos do
que dos mritos. Perturba mais uma cabea bem penteada, um
vestido de bom corte, modelando bem as formas do que uma frase
reveladora de excelsas qualidades morais.
"Pergunte a uma mulher experimentada qual  prefer-
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vel, passar por mentirosa ou aparecer mal arranjada ao homem
que pretende cativar. Ela preferir a primeira alternativa.
"Sabem perfeitamente que mentimos quando falamos de
sentimentos puros. Sabem que s fisicamente as pretendemos. E
perdoamos mais facilmente uma vilania do que o ridculo de um
vestido de mau gosto.
"As mulheres experimentadas procedem conscientes; as
rapariguinhas inocentes fazem-no inconscientemente.
"As mulheres casadas sabem que, por mais atraente que seja a
conversa de uma mulher, o que interessa ao homem, quando se
aproxima,  tudo o que lhe desperte os sentidos. E por isso,
procuram, principalmente, o que possa torn-las mais
provocadoras. No sei quando estes costumes entraram na
sociedade, mas parece-me que toda esta sociedade  uma imensa
casa de tolerncia. Que diz voc?... Permita que lho
demonstre. Diz que as senhoras da nossa sociedade tm
interesses diferentes das mulheres toleradas, eu afirmo o
contrrio e provo-o.
"Se as pessoas diferem plos seus fins, pelo contedo interno
da sua vida, essa diversidade reflectir-se- inevitavelmente
no exterior, e esse exterior ser diferente.
"Comparemos agora essas desgraadas infelizes de todo o mundo
com algumas outras mulheres: as roupas interiores, os gestos,
o modo de andar, os braos nus, as espduas desnudadas, a
nudez do peito, o jeito de bambolear o corpo, a paixo das
jias e dos objectos brilhantes, os divertimentos, as danas,
a msica e as canes, tudo  igual. Umas e outras procuram
seduzir. S h uma diferena, umas so as senhoras bem,
outras, as banidas da sociedade."
VII
- Assim ca na ratoeira dos jersey, dos penteados e enfeites
postios. Era, alis, fcil de conseguir, porque fui educado
nas condies em que se criam e formam os jovens amorosos,
como pepinos em viveiros.
"Com efeito, a alimentao excitante e abundante, sem nenhum
exerccio, so estimulantes sistemticos do desejo fsico.
Embora isto lhe cause admirao  assim mesmo. Eu prprio, at
h pouco, no via nada disto, mas agora vejo. O que me tortura
 que ningum nota estas anormalidades. E a maior parte diz
baboseiras, como h pouco aquela senhora.
"Na Primavera, quando os camponeses trabalhavam perto da minha
casa num aterro do caminho-de-ferro, assisti  refeio
habitual de um campons, que  constitu-
21
da por po, kuass e alhos; o campons  vivo, so e realiza o
seu trabalho do campo, com facilidade.
"Quando vem para o trabalho no caminho-de-ferro distribuem-lhe
todos os dias gruau e uma libra de carne; aumentam-lhe a rao
e tornam-lha mais forte; e ele con-some-a, trabalhando
dezasseis horas por dia, puxando uma carrinha.  o que 
preciso.
"Ns, que absorvemos, cada um, duas libras de carne de veado
ou javali e todas as espcies de petiscos picantes e bebidas
alcolicas; onde desgastamos esses alimentos? Em excessos
sexuais. Se abrimos a vlvula de segurana, tudo vai bem, mas
se a fechamos, como eu a fechei vrias vezes, produz-se a tal
excitao doentia, que, sob a influncia da msica e dos
romances, acaba por apresentar todos os sintomas do amor.
"Apaixonei-me como toda a gente. Conheci as deliciosas
emoes, os poticos enternecimentos, os enlevos que lembram
xtases.
"E, afinal, esta paixo era obra da me e da modista, das
refeies suculentas e da falta de exerccio fsico.
"Se no fossem os passeios de barco, os vestidos que modelam
as formas e realam a elegncia, nunca me teria apaixonado!
Nunca teria cado no lao!"
VIII
- Desta vez o plano teve xito. O passeio de barco, um vestido
elegante e o meu estado de esprito deram resultado. Vinte
vezes o plano falhara. No estou a brincar. Desta vez a
ratoeira fora bem armada.
"Hoje prepara-se um casamento como quem prepara uma esparrela.
" natural que, quando a rapariga chega  idade de casar, seja
preciso cas-la, e  fcil, quando no  um monstro e h
homens que se encontram na mesma situao.
"Assim se procedia outrora; quando chegava esse momento, os
pais casavam as filhas.  isto o que se passava e se continua
a passar em toda a humanidade;  o que se passa entre os
chineses, os hindus, os maometanos e entre o nosso povo em
todo o gnero humano, numa proporo de noventa e nove por
cento.
"Mas a centsima parte, os devassos, no considermos bem e
que era necessrio encontrar alguma coisa de novo. E qual foi
essa coisa nova?... - Nas salas, nos sales, nos passeios
pblicos as raparigas sentam-se e os homens passeiam de diante
para trs e de trs para diante, fazendo a sua escolha.
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"As raparigas esperam e pensam sem ousar dizer: - A mim, meu
querido!... No repares nas outras... Repara em mim... Repara
como so belas as minhas espduas e bem lanado o meu colo...
"Os homens continuam a passar, tornam a passar, despem-nas com
os olhos e sentem-se satisfeitos e vo passando e dizendo, s
vezes: - A mim no me apanham vocs.
"Sentimo-nos vaidosos por a feira se fazer por nossa causa,
mas, sem darmos conta, l vamos cair na ratoeira que
habilidosamente nos foi preparada."
- Mas como proceder de outro modo?... Dever ser a mulher a
pedir o homem em casamento?
- Verdadeiramente, no sei o que lhes hei-de responder. Mas,
se se fala em direitos da mulher, que haja realmente
igualdade. Achavam o pedido de casamento humilhante, mas o que
se passa  muito pior. A mulher correria os mesmos riscos que
o homem. Assim, ou  escrava no mercado, ou isco no anzol.
"Experimente dizer s mes, ou s filhas que esto preparando
a rede onde h-de cair o noivo... Meu Deus! Que grave
ofensa!...
"Contudo no procedem de outro modo.  horrvel saber as
raparigas absorvidas sempre por este pensamento. E, se ao
menos, as coisas se passassem de uma forma clara e sria!...
Mas h qualquer coisa de bruxaria...
"Diz a me: Que interessante  o estudo da origem das
espcies... - Lisa  uma apaixonada da pintura!... Voc vai 
exposio?  muito interessante e instrutiva... - A minha Lisa
adora a msica... Voc costuma ir aos concertos.... Tm estado
estupendos!... Voc no calcula!... Vocs deviam
entender-se...
"E  sempre o mesmo pansamento: casa com a minha Lisa..."
- Que abjeco! Que mentira! - concluiu ele. E como tinha
acabado de tomar o ltimo gole de ch comeou a arrumar as
chvenas e tudo de que se servira.
IX
- Voc acredite - continuou ele, metendo o ch e o acar no
saco de couro. - O domnio da mulher que ns sentimos, vem
afinal somente de um interesse fsico.
- Mas que domnio? - perguntei eu. - Todos os direitos e
privilgios esto na posse do homem.
- Justamente - interrompeu ele. -  um facto curioso. Por um
lado  perfeitamente justo dizermos que a mulher est numa
situao humilhante, por outro que ela  dominadora.
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"As mulheres tm a mesma situao que os judeus, que se vingam
da opresso em que vivem pelo poder do dinheiro.
"- Vocs querem que no passemos de comerciantes? Pois bem.
Como comerciantes ns vos dominaremos - dizem os judeus.
"- Vocs s nos consideram como objecto de sensualidade? Pois
bem, ser pela sensualidade que vos dominaremos.
"A ausncia de direitos na mulher no est no facto de ela no
poder votar ou de no ser juiz (ocuparmo-nos dos nossos
interesses no  um direito); est no facto de ela poder ter o
direito de escolher e no ser escolhida. Voc diz que no 
conveniente. Mas ento que o homem seja privado dessas
regalias. Por agora a mulher est privada desse direito e,
como compensao, ela actua sobre a sensualidade do homem,
submete-o plos sentidos de tal forma que, na realidade, quem
escolhe  a mulher. Quando a mulher possui a arte de seduzir,
abusa dela e adquire um terrvel ascendente.
- Mas como me prova esse poder temvel da mulher? Como se
manifesta? - perguntei-lhe eu.
- Manifesta-se em tudo e por toda a parte. Visite os grandes
armazns de qualquer cidade, no importa qual. Ver objectos
avaliados em milhes, trabalho gigantesco, quase incalculvel,
s para a mulher.
"Quantos vendem artigos para homens? Dez em cem.
"Todo o luxo da existncia  exigido e mantido pela mulher. A
maior parte das fbricas produz, na sua grande maioria,
ornamentos fteis...
"Milhes de homens, geraes de escravos, morrem no decorrer
desses trabalhos forados unicamente pelo capricho das
mulheres. Elas so como imperatrizes, e tm na escravatura de
um trabalho extenuante, nove dcimos da humanidade. E tudo
isto porque as mulheres vivem em situao humilhante; porque
lhe recusamos direitos iguais aos homens. Vingam-se, actuando
sobre os nossos sentidos. E todo o problema gira  volta deste
tema.
"Desde que um homem se aproxima de uma mulher, deixa-se
influenciar plos seus sortilgios e torna-se louco.
"Outrora sentia-me sempre mal quando via uma mulher metida no
seu vestido de baile. Agora isso inspira--me terror. Vejo,
nitidamente, qualquer coisa de perigoso, qualquer coisa de
ilegal e tenho vontade de chamar a polcia, de exigir que a
levem como um objecto terrvel.
"Voc ri-se - exclamou ele, olhando para mim. - No  coisa
para rir. Estou convencido de que vir depressa o tempo, mais
depressa do que ns supomos e em que todos
24
compreendero e se espantaro que tenha podido existir uma
sociedade em que se tolerem actos to contrrios 
tranquilidade pblica e  felicidade das famlias, como  a
maneira de expor o corpo das mulheres, to provocantemente.
"Por toda a parte surgem mulheres hediondamente vestidas, nas
praas, nos passeios pblicos, nos caminhos, nos bailes, nos
concertos e at nas prprias famlias. Verdadeiras emboscadas
aos nossos sentidos.
"Por que se probem os jogos de azar e se consente que,
publicamente, apaream mulheres seminuas, o que  mil vezes
mais imoral?
"Estranho critrio!..."
X
- E assim fui apanhado. E assim fiquei enamorado. No s
considerava a minha noiva a mulher mais perfeita, mas eu
prprio me considerei, durante o noivado, o mais perfeito dos
homens.
"No h ningum to mau que no encontre outro pior. E este
pensamento  um manancial de prazer e de orgulho. Era este o
meu caso.
"No casava por dinheiro, como sucedia  maior parte dos meus
amigos. Eu era rico, ela era pobre. E outra coisa me
envaidecia. Os outros casavam, mas com a inteno de
continuarem a viver na poligamia, como antes do casamento. Eu
estava absolutamente resolvido a manter-me em monogamia,
depois de casado. Era um miservel mas julgava-me um anjo.
"O perodo de noivado durou pouco. No posso lembrar esta
poca sem corar de vergonha.
"Que ignomnia!
"Se o amor  espiritual, s por palavras deve exprimir--se.
Mas no . Quando estvamos juntos era-nos difcil sustentar
uma conversa. O assunto esgotara-se. Nada tnhamos para dizer.
Tudo, sobre a nossa vida futura, estava dito. Se fssemos
animais sabamos, de antemo, que no era assunto de conversa.
Connosco o caso era diferente. ramos obrigados a falar e no
tnhamos nada para dizer. O assunto que nos interessava no se
resolvia com palavras. E havia ainda o terrvel costume de
oferecer bombons, comer gulodices e tratar dos abjectos
preparativos para o novo lar: escolha da casa, do quarto de
cama, do leito nupcial e de todas as pequenas coisas da futura
vida domstica.
"Se nos casssemos, segundo os preceitos de Demosto-roi, como
queria o velho senhor do comboio, os edredons e
25
o enxoval do leito eram pormenores que faziam parte do
sacramento. Mas para ns, em que dez pessoas que contraem
casamento s uma cr no sacramento, ou pelo menos pensa que 
um dever; quando em cem homens h apenas um, que no tenha
faltado  castidade e que no esteja na disposio de
atraioar a mulher legtima; para ns em que a maior parte
considera o ir  igreja uma mera formalidade para ter a posse
de uma mulher, em particular, que significao podem ter os
preparativos pr-nup-ciais?
" uma espcie de mercado. Vende-se uma filha a um devasso mas
a venda faz-se sob as mais puras e poticas aparncias."
XI
- Casei-me como qualquer pessoa e comeou a to desejada
lua-de-mel. Como  reles esta expresso! - disse entredentes.
- Um dia em Paris fui assistir a todos os espectculos e
entrei, tambm, levado por um excitante anncio, a ver uma
mulher com barbas e um co aqutico; a mulher era um homem com
um vestido decotado e o co estava metido na pele de uma foca
e nadava numa banheira, cheia de gua;  primeira vista isto
nada tem de comum com a lua-de-mel e nada tem de interessante.
Quando sa, porm, o homem que fazia a arenga acompanhou-me
amavelmente e dirigindo-se ao pblico, mesmo  entrada disse,
apontando para mim:
"- Perguntem a este senhor se no vale a pena ver to
estupendo espectculo! Entrai! Entrai!  um escudo por
pessoa!"
" No ousei desmenti-lo, claro, e o charlato tinha a certeza
disso.  isto o que provavelmente acontece aos que
experimentaram a abominao da lua-de mel e no tm coragem
para desfazer as iluses dos outros e as suas prprias
iluses.
"Mas eu no desenganei ningum. Hoje, no entanto, no vejo
razo para que no os desengane. Julgo mesmo que  necessrio
dizer toda a verdade sobre o assunto. A lua-de-mel, como se
pratica,  uma coisa terrvel, abjecta, insuportvel de tdio
e cansao. , mais ou memos, o que acontece quando se
principia a fumar; vontade de vomitar, nuseas, e vai-se
engolindo a saliva para fingir que se tem um grande prazer. O
cigarro, como o casamento, s provoca prazer depois do hbito,
quer dizer, depois da adaptao dos casados.
" necessrio que os esposos saibam regular o vcio para que
desses actos lhe venham compensaes."
26
- Regular o vcio?... - perguntei eu. - Que vcio? Voc
esquece-se de que  uma das manifestaes mais naturais da
espcie humana.
- Natural? - exclamou ele. - Natural? No, pelo contrrio.
Cheguei  concluso de que no  um acto natural. No , de
nenhum modo, natural. Tive uma irm que se casou muito nova
com um homem dez vezes mais velho do que ela, um devasso.
Lembro-me do nosso espanto quando na noite do casamento fugiu
de casa e, toda a tremer, nos disse que por nada no mundo...
por nada do mundo... nos podia dizer o que ele pretendia dela.
"Voc diz que  uma coisa natural!... Natural  comer. Comer 
uma coisa agradvel, fcil e alegre; no inspira vergonha nem
mesmo no princpio. Mas isto  uma coisa abjecta, vergonhosa e
dolorosa. No. No  uma coisa natural. E uma rapariga pura,
estou convencido, odiar sempre esse acto."
- Mas, diga-me... Como se reproduziria o gnero humano?
- Sim.  verdade. Conquanto que o gnero humano no acabe! -
disse ele com uma cruel ironia e como se esperasse esta
rplica habitual e de m-f.
"Pregar que se devem evitar os filhos para que os lordes
ingleses possam comer mais  vontade...  possvel.
"Pregar que se abstenham de ter filhos para que a vida seja
mais fcil e se possa goz-la melhor...  possvel.
"Mas insinuar que se devem evitar os filhos a bem da moral...
"Meu Deus, que calamidade! Mas ir o gnero humano desaparecer
porque uma dzia ou vinte homens desejam no viver como
porcos?
"D-me licena?... A luz incomoda-me, posso apagada?",
perguntou ele, apontando para a lmpada.
- -me indiferente...
Precipitadamente, como tudo o que fazia, subiu ao banco e
apagou a lmpada.
- De qualquer maneira - disse eu. - Se dessa teoria se fizesse
uma lei, o gnero humano desapareceria. Ele no respondeu
imediatamente.
- Voc quer saber como se perpetuaria o gnero humano? - disse
ele, instalando-se de novo na minha frente, e abriu as pernas,
apoiando os cotovelos sobre os joelhos. - Para qu perpetuar o
gnero humano? Para qu?
- Para qu?... Sem isso deixaramos de existir.
- E para qu existir?
- Para qu?! Para vivermos...
- Mas viver para qu? Se no se tem um fim na vida,
27
se a vida nos foi dada por si mesma no h razo para
vivermos. Se isto  assim os Schopenhauer, ou os Hartman e
todos os budistas tm razo. Se h um fim, desde que 
atingido, a vida deve cessar.  esta a concluso a que
chegamos", disse ele com manifesta emoo (dava muita
importncia ao seu pensamento).
"Se o fim da vida  o bem, o amor, como voc o entende; se o
fim da humanidade  o que dizem as profecias, que todos os
homens se uniro pelo amor, e que ho-de forjar-se foices com
os ferros das lanas; o que se ope  realizao desse fim? As
paixes.
"E de todas as paixes, a mais forte, a mais prfida, a mais
obstinada  a paixo da carne. Por consequncia, se suprimirem
as paixes, e principalmente a maior de todas, realizar-se- a
profecia; os homens unir-se-o, o fim da humanidade ser
atingido e, portanto, no haver razo para existirmos. Mas
enquanto dura a humanidade ela tem de realizar o seu ideal que
no  de maneira nenhuma o ideal dos coelhos nem dos porcos
que  o de se reproduzirem o mais depressa possvel, nem o dos
macacos ou dos parisienses que  tirarem o mximo rendimento
dos prazeres sexuais. Mas sim o ideal do bem que se atinge
pela continncia e pela pureza.  para a que tendem os homens
e sempre tendero.
"Veja o que daqui resulta. Resulta que o amor carnal  uma
vlvula de segurana. Se a gerao dos homens actualmente viva
no atinge esse fim  unicamente porque tem paixes e a mais
forte de todas, a paixo dos sentidos. Vir ento uma gerao
que talvez cumpra a lei, mas se essa no atingir o fim para
que foi criada outra vir at que se realize a profecia, a
unio de todos os homens. O amor sensual  o sinal do desprezo
pela lei. Enquanto esse amor existir ir-se-o formando
geraes umas aps outras at que a lei se cumpra.
"A espcie mais elevada dos animais, a espcie humana, devia,
para se manter na luta contra os outros animais, assemelhar-se
em tudo a um enxame de abelhas; no se multiplicar at ao
infinito. Devia, como as abelhas, criar assexuados, isto ,
caminhar para a continncia e no para o sensualismo para o
qual est organizada a vida moderna."
Calou-se por momentos.
- O gnero humano deve desaparecer? De qualquer maneira que
encaremos o problema no se pode duvidar.  certo como a
morte. Segundo a doutrina da Igreja o mundo ter um fim;
segundo os ensinamentos da cincia esse fim  indubitvel. Que
admira pois que o ensino da moral nos conduza  mesma
concluso?
28
Esteve calado durante muito tempo, depois bebeu mais um gole
de ch, acabou o cigarro, tirou outros do saco e meteu-os na
sua velha cigarreira.
- Compreendo o seu pensamento, os Shakers sustentam uma tese,
mais ou menos parecida.
- Sim. Eles tm razo. A paixo sexual, qualquer que seja o
cenrio que a envolva  um mal horrvel que  preciso combater
e no encorajar como se procede entre ns.
"Quando o Evangelho diz que um homem que olha para uma mulher
com cobia j cometeu com ela adultrio no seu corao - tem
em vista no s as mulheres dos outros mas expressamente, e
sobretudo, a sua prpria mulher."
XII
- Na nossa sociedade  exactamente o contrrio; se um homem
pensa quando  solteiro que deve ser continente, ao casar
entende que tem de deixar de o ser.
"As viagens depois da cerimnia nupcial, o isolamento em que
se colocam os recm-casados, com a autorizao dos pais, no
so outra coisa que a permisso de se entregarem ao prazer.
"Apesar de todos os meus esforos eu no consegui organizar a
minha lua-de-mel.
"Esta poca da minha vida foi horrorosamente aborrecida e
ignominiosa. E muito depressa se tornou intolervel. Comeou
cedo. No terceiro ou quarto dia pareceu-me que a minha mulher
estava triste e, pensando que ela precisava de carinhos,
perguntei-lhe o que tinha e tentei beij-la; repeliu-me e
desatou a chorar. Porqu?... ela no o sabia dizer. Estava
triste e mal disposta. Sem dvida os nervos gastos deixaram-na
compreender a verdade sobre a infmia das nossas relaes. Mas
ela no o sabia explicar. Como eu continuasse a interrog-la,
confessou-me que sentia muito a falta da me. Tive a impresso
de que no era verdade. Sem lhe falar na me, comecei a
cham-la  razo.
"Eu compreendera que ela atravessava um momento difcil e a
razo que me dera era um pretexto.
"Ofendeu-se por lhe no ter falado na me e por no a ter
acreditado. Confessou-me que percebia, claramente, que eu j
no a amava. Censurei-a por ser caprichosa. Ento a sua
fisionomia alterou-se completamente. Em vez de tristeza
exprimia irritao e, em frases mordazes, censurou o meu
egosmo e a minha crueldade. Fitei-a. No parecia a mesma. A
expresso era de hostilidade, quase dio. Lembro-me que senti
pavor ao fazer esta descoberta. - Como pode isto ser - pensei
eu. - O amor  a unio das almas.
29
"Tentei acalm-la, mas embati num muro to intransponvel de
hostilidade e frio amargor que, antes de ter tempo de me
vencer, tomou-me uma funda irritao e vomitmos um sobre o
outro uma avalanche de palavras desagradveis.
"A impresso do primeiro desentendimento foi atroz. Chamo a
isto desentendimento, mas no foi desentendimento foi a
revelao do abismo que, na realidade, nos separava. Era a
consequncia do amortecimento das nossas relaes mais
ntimas. Eu no compreendi logo, porque esta hostilidade nos
primeiros tempos desvanecia-se com um novo sobressalto dos
nossos sentidos.
"Julguei a princpio que estas cenas no recomeariam. Porm,
passada a lua-de-mel houve um novo perodo de saciedade.
Deixmos de precisar um do outro e deu-se uma nova discusso.
"Esta segunda disputa feriu-me mais do que a primeira, porque
surgiu sob um pretexto inverosmil; por causa de uma economia
de dinheiro que eu era incapaz de fazer para mim e muito menos
para a minha mulher.
"Lembro-me dela ter conseguido virar completamente o sentido
de uma expresso que eu empregara e servir-se dela como
argumento para provar que eu a queria subjugar pela fora do
meu dinheiro... Foi insuportvel, estpida, reles, indigna
dela e de mim.
"Irritei-me. Reprovei-lhe a sua falta de delicadeza. Ela
censurou-me asperamente e tudo recomeou. Nas palavras
pronunciadas e na expresso da sua fisionomia e no seu olhar
percebi, de novo, essa mesma hostilidade dos primeiros dias
que tanto me ferira.
"Discuti muitas vezes com meu irmo, com os meus amigos, com
meu pai, mas, nunca entre ns se manifestou o ressentimento
pessoal e venenoso que notei na minha mulher. Mais uma vez
ainda este dio recproco se atenuou com um novo sobressalto
dos sentidos e eu cheguei a ter esperana de que estas
discusses eram reparveis. Mas outros desentendimentos
surgiram por tudo e por nada e eu compreendi que no era o
acaso, e, era este, para sempre, o inferno que me esperava.
"Alm disso estava convencido de que s a mim isto acontecia,
ser eu o nico a suportar esta dolorosa vida com a minha
prpria mulher e em todos os outros lares as coisas se
passavam de modo diferente.
"Nessa poca eu ignorava que  esta a sorte comum da maior
parte das famlias, mas todos, como eu, se julgam casos nicos
e guardam para si esta desgraada vergonha. Esta situao
comeou nos primeiros dias e continuou sempre e, cada vez, com
maior intensidade.
30
"No fundo da minha alma eu compreendi depois das primeiras
semanas ter cado na ratoeira: nada do que se passava era o
que eu esperava e o casamento no s no dava felicidade mas
era qualquer coisa de amargurante. Como toda a gente eu
recusava-me a confess-lo (eu no o confessaria ainda hoje, se
no se tivesse dado o trgico desenlace) e guardei dos outros,
e at de mim, esta verdade.
"Admiro-me agora de no ter visto, de princpio, a minha
verdadeira situao. E eu podia t-la visto desde essa poca,
porque as nossas discusses comeavam por tais ninharias que
quando acabavam era impossvel saber por que tinham
principiado. Mas se os motivos das discusses eram
inverosmeis muito mais inverosmeis eram os motivos da
reconciliao. Algumas vezes eram s palavras, explicaes e
mesmo lgrimas de parte a parte, mas algumas vezes...
repugna-me lembr-lo. As insinuaes mais cruis
transformavam-se, de sbito, sem uma palavra, em sorrisos,
beijos e profundos enternecimentos.
"Que abominao!... Por que no compreendi ento toda a
abjeco do nosso procedimento?"
XIII
Entraram dois novos viajantes e instalaram-se num lugar
afastado. Ele calou-se, enquanto eles se instalaram, mas logo
que cessou o burburinho continuou, dando a impresso de que
no perdera o fio do pensamento:
- ... O que  imundo  que, em teoria, se considere o amor
como uma coisa ideal, nobre, quando afinal a prtica do amor 
qualquer coisa de srdido que nos avilta e nos pe a par dos
porcos, coisa abominvel e vergonhosa de se falar em frente de
quem quer que seja! Mas os homens querem tornar admirvel e
superior o que no  seno srdido e reles.
"Quais foram os primeiros sinais do meu amor?... Entregar-me a
uma exuberncia animal. E no s no tinha vergonha mas
blasonava desta minha possibilidade de transportes fsicos,
sem pensar na vida espiritual nem mesmo na vida fsica.
"Muitas vezes procurei a razo da nossa profunda animosidade
um contra o outro, e contudo era bem compreensvel e claro:
esta animosidade no era outra coisa do que o protesto da
natureza humana contra a animalidade que a abafava.
Confrangia-me a nossa averso; mas no podia ser de outro
modo. Esta averso no era outra coisa do que o dio recproco
dos cmplices de um crime... por instigao e por
participao. Era um verdadeiro crime.
"Minha mulher concebeu desde o primeiro ms e, ape-
31
sar disso, a nossa vida em comum continuou, como verdadeiros
animais.
"Julga que me estou a afastar do assunto? De maneira nenhuma.
Continuo a contar-lhe como matei a minha mulher.
"No tribunal perguntaram-me com que havia morto minha mulher.
Cambada de imbecis!... Estavam convencidos de que a havia
morto no dia cinco de Outubro, com uma faca. No foi nesse dia
que a matei; foi muito antes. Como eles matam
continuamente..."
- Mas, no percebo... Como matam?...
- Eis o que  espantoso; ningum quer saber o que  evidente e
claro, o que devem saber e difundir os mdicos e 
horrorosamente simples.
"O homem e a mulher foram criados como os animais de tal modo
que, depois do amor carnal comea a gestao, depois o
aleitamento, estados em que o amor carnal  nocivo  criana e
 mulher.
"No  necessrio uma grande cincia para se concluir que,
como afinal concluem os animais, no perodo de gestao e
aleitamento deve haver continncia. Mas no. A cincia j
chegou a descobrir no sei que leuccitos que correm no sangue
e outras inpcias que no servem para nada mas no pde ou no
quis descobrir isto. Pelo menos nunca ouvi dizer que tenha
sido abordado tal assunto. De modo que para a mulher s h
duas sadas: a primeira fazer de si prpria um monstro,
destruir ou tentar destruir em si, segundo as necessidades, a
faculdade de ser mulher, isto , me, a fim de que o homem
possa, tranquilamente e de uma maneira constante,
satisfazer-se; a segunda modalidade, que no  um expediente
mas a violao directa, simples e grosseira das leis da
natureza e se pratica em todas as famlias consideradas
honestas. A mulher, violentando a sua prpria natureza deve
ser ao mesmo tempo grvida, ama e amante e deve ser rebaixada
at onde no so os animais.
"Esgotam-se-lhe as foras. E da provm os muitos casos de
histeria; de doenas de nervos e no povo... as possessas. Note
voc que os casos das possessas no se encontram entre
raparigas puras, mas somente entre as mulheres casadas e entre
as casadas as que coabitam com os maridos.
"E assim entre ns e  assim na Europa. Os hospitais esto
cheios de mulheres histricas porque infringiram as leis da
natureza.
"As possessas e as doentes de Charcot so verdadeiras doentes,
e o mundo est cheio de estropiadas.
"Se pensssemos na grande obra que se realiza na
32
mulher quando ela traz dentro de si um filho, ou quando o
amamenta!...
"O que ela traz em si  a nossa continuao, quem nos
substituir... e esta obra sagrada  comprometida... Porqu?
__
" acabrunhante meditar nisto. Fala-se muito nos direitos da
mulher e, afinal,  como se os antropfagos engordassem os
prisioneiros para os comer, afirmando contudo que muito os
interessa os direitos e liberdade desses mesmos prisioneiros."
Tudo isto era novo para mim e interessou-me:
- Mas nesse caso um homem s pode amar a mulher uma vez, de
dois em dois anos, e o homem...
- E o homem no pode sujeitar-se a tanto...
"Os ilustres sacerdotes da cincia assim o fazem crer a todo o
mundo. Gostaria de poder obrigar estes magos da cincia a
substituir as mulheres nestas obrigaes que, segundo eles,
so indispensveis aos homens.
"Convena um homem de que  indispensvel  vida a vodca, o
tabaco, o pio e tudo isto se tornar indispensvel.
"Deus porque no consultou esses adivinhos da cincia, no
compreendeu o que era necessrio e falhou. H portanto
qualquer coisa que no est certa.
"Se para o homem (os magos assim o determinam)  uma
necessidade satisfazer a sua concupiscncia e se a procriao
e o aleitamento so um obstculo  satisfao dessa
necessidade, que fazer ento? Dirigirem-se aos magos e tudo se
arranja. Eles tm a soluo para todos os problemas.
"Quando sero destronados estes adivinhos e as suas
imposturices?...  tempo!
"Veja ao que chegamos; uns enlouquecem, outros suicidam-se, e
tudo tem a mesma causa.
"Mas como proceder de outro modo?
"Os animais parecem compreender que a descendncia assegura a
continuidade da espcie e observam a esse propsito a lei que
a regula. S um animal a ignora e faz por ignorar. De quem se
trata? Do rei da natureza. Do homem!
"Note que os animais se acasalam quando pressentem que podem
ter descendncia, e que ao imundo rei da natureza todo o tempo
lhe serve, conquanto tire disso proveito. E ainda mais, esta
ocupao de macaco  exaltada como a prola da criao, o
amor. Em nome deste amor, ou melhor, desta abominao,
assegura a perda de quem? De metade do gnero humano! De todas
as mulheres que deveriam ser suas colaboradoras na evoluo da
humanidade para o bem e para a verdade, mas em nome do prazer
se fazem, no auxiliares, mas inimigas.
33
"Observe o que refreia o movimento de avano da humanidade: as
mulheres. E porqu? Unicamente por isto. Sim. Sim", repetiu
ele vrias vezes e ps-se muito agitado. Procurou os cigarros,
acendeu um com o desejo evidente de se acalmar.
XIV
- Vivi assim, como um porco - continuou ele no mesmo tom que
dantes.
"E o pior era que levando esta vida infame, considerava-me -
porque no seduzia outras mulheres e levava uma existncia
conjugal honesta - um homem irrepreensvel. No me sentia
culpado e atribua as questes que surgiam, entre ns, ao mau
carcter da minha mulher.
"Mas no era ela a culpada. Ela era como a maior parte.
"Tinha sido educada como so quase todas as mulheres da nossa
sociedade. H quem se queixe da forma como a mulher  educada.
H quem deseje dar-lhe outra orientao.  fogo de vista.
"A mulher recebe e receber a educao dentro do esprito em
que a considerem. A educao da mulher corresponder sempre 
maneira como o homem a julgue.
"Sabemos todos o que o homem pensa da mulher.
"Tanto na poesia, como na pintura ou na escultura, s se
considera a mulher como instrumento de prazer; comeando pela
poesia amorosa, pelas Vnus e as Phrineas nuas todas elas e
isto  assim em Trouba, em Gratchevka e nos bailes da corte.
Quando se fala de voluptuosidade e de prazer pensa-se na
mulher.
"No princpio, os cavaleiros divinizavam a mulher
(divinizavam-na mas, mesmo assim consideravam-na um
instrumento de prazer).
"Hoje pretende dizer-se que se respeita a mulher. E assim uns
cedem-lhe os seus lugares e apanham-lhe o leno; outros
reconhecem-lhe o direito de exercer todas as funes e de
tomarem parte na administrao.
"Fazem tudo isto, mas a opinio  sempre a mesma: o corpo da
mulher  um instrumento de prazer. E a mulher sabe-o. Esta
atitude no difere muito da escravatura. A escravatura  a
explorao por uns do trabalho forado de um grande nmero.
Para que no haja escravatura  necessrio que os homens no
queiram usufruir o trabalho forado de outros e considerem
isto como pecado ou uma desonra. Enquanto isto se no der
suprime-se a forma exterior da escravatura, tomam-se
disposies para impedir os mercados de escravas e fica-se
persuadido de que a escravatura foi abolida. No vem, no
querem ver que a escra-
34
vatura continua a existir porque se continua a amar da mesma
maneira, e se julga bom e justo aproveitar o trabalho forado
dos outros. E porque se julga bom este procedimento haver
sempre mais fortes e mais manhosos para passarem do pensamento
aos actos. O mesmo se d com a emancipao das mulheres. A
escravatura da mulher consiste s no facto de os homens a
considerarem como instrumento de prazer. Modernamente
emancipam-na, concedem-lhe todos os direitos do homem, mas
como  imprescindvel para a satisfao das suas necessidades
fisiolgicas educam-na neste sentido desde a infncia. Assim
ela  uma escrava, humilhada, pervertida, e o homem um
corrompido senhor de escravos.
"Emancipam a mulher nas universidades e nos parlamentos mas,
de facto, s a consideram escrava dos sentidos. Ensinai-a como
entre ns a consider-la da mesma maneira e a mulher ser
sempre uma criatura inferior. E com a ajuda dos mdicos ela
impedir a concepo, e cruelmente diremos que no passa de
uma prostituta, descer ao mais baixo nvel, descer abaixo
dos animais e ser um objecto ou em muitos casos, uma doente
moral, uma histrica, uma infeliz, o que elas so na realidade
sem possibilidades de se desenvolverem espiritualmente.
"Os liceus e as universidades no tm possibilidades de
modificar este estado de coisas. S a mudana radical da
opinio que os homens tm das mulheres e as mulheres no tm
dos homens pode modificar um tal estado de coisas. Isto
acabar quando a mulher se convencer de que o estado mais
perfeito  o da virgindade.
"Enquanto o ideal de toda a rapariga, qualquer que seja a sua
formao, for o de atrair o maior nmero de homens para poder
fazer a sua escolha, nada mudar.
"Ou seja instruda nas matemticas ou saiba executar
maravilhosamente trechos de harpa nada mudar...
"A mulher s  absolutamente feliz se obtm o que pode
desejar, isto , conseguir embruxar um homem. Ser sempre
assim... Isto passa-se na nossa sociedade, na vida das
raparigas solteiras, e depois, na vida de casadas, o fim 
sempre o mesmo: dominar o homem.
"A nica coisa que pe termo a esta situao  o nascimento
dos filhos. E quando a mulher no  um monstro, a sua criao.
" ento que intervm mais uma vez os sacerdotes da cincia.
"Minha mulher, que quis, por todos os modos amamentar o
primeiro filho e alimentou todos os outros cinco teve durante
a primeira gravidez umas pequenas crises.
"Os mdicos cinicamente obrigavam-na a despir-se,
35
apalpavam-na em todos os sentidos (e eu tive que lhes pagar
por esse trabalho) e por fim estes caros doutores decretaram
que ela no devia criar o beb e assim ficou privada durante
os primeiros tempos do nico meio de se subtrair  coqueteria.
"O nosso primeiro filho foi criado por ama e dizendo por forma
mais rude: <Aproveitmos a misria, a indigncia, e a
ignorncia de uma pobre mulher tirmo-la ao filho e sob este
pretexto enfeitmos-lhe a cabea com uma coifa de fitas.> Mas
no  disso que se trata.
"O problema  que desde que ela se libertou da gravidez e da
criao a coqueteria feminina que estava entorpecida despertou
com uma fora particular. E ao mesmo tempo sobrevieram-me,
paralelamente e com a mesma fora, os tormentos do cime.
"Dilaceraram-me sem trguas durante todo o tempo que vivi com
minha mulher da mesma maneira que dilaceram todos os casais
que vivem com as suas mulheres como eu vivia, isto , de uma
maneira perfeitamente imoral."
XV
- Durante todo o tempo que vivi com a minha mulher nunca
deixei de experimentar os tormentos do cime. E houve mesmo
perodos em que sofri com profunda acuidade. Um desses
perodos foi depois do nascimento do primeiro filho quando os
mdicos proibiram que minha mulher o amamentasse.
"Sofri horrorosamente, primeiro porque minha mulher sentia uma
inquietao prpria de todos os que sem razo perturbam a
marcha regular da existncia; segundo porque vendo-a enjeitar
a sua responsabilidade de me conclui, inconscientemente, que
lhe seria fcil fugir s suas responsabilidades de mulher
casada, tanto mais que ela estava de perfeita sade. Apesar da
interdio dos mdicos ela criou ao peito todos os outros
filhos."
- Decididamente voc no gosta dos mdicos - disse-lhe eu.
Notara que sempre que falava dos mdicos dava uma entoao
particularmente odiosa s palavras.
- No  questo de gostar ou no gostar; arruinaram--me a vida
como arruinaram e continuam a arruinar a vida de milhares, de
centenas de milhar de pessoas. Compreendo que eles desejem
ganhar dinheiro, como os advogados e outros profissionais.
"Conceder-lhes-ia metade dos meus rendimentos e todas as
pessoas, se compreendessem bem o que eles fazem, lhes
cederiam, de bom grado, metade dos seus
36
rendimentos, s para que eles se no metessem na nossa vida.
"No juntei todas as minhas informaes, mas conheo dezenas
de casos e h muitos mais em que, umas vezes mataram o filho
no ventre da me, outras vezes mataram a me sobre o pretexto
de no sei que operao.  impossvel de enumerar os crimes
que cometeram. Mas todos estes crimes no so nada comparados
com a corrupo moral e com o materialismo que eles tm
introduzido no mundo, por intermdio das mulheres. Eu no falo
das prescries que eles exigem (a respeito por exemplo dos
contgios) e fazem a desunio entre os homens; segundo eles
devamos andar sempre com uma seringa de fenol na boca. Mas
isto no  nada. O principal veneno  a corrupo dos seres,
principalmente das mulheres. Hoje  quase impossvel dizer:
<Vives mal, procura viver melhor.> No se pode dizer isto nem
a si prprio nem a ningum. Se se vive mal a causa est no mau
funcionamento dos nervos ou outra qualquer coisa do mesmo
gnero. Ento vamos a correr ao mdico e prescrevem-nos trinta
e cinco copeques de medicamentos e devoramo-los. Voc piora,
corre a outros mdicos, so precisas novas drogas, outros
mdicos! Uma fantochada! Mas a questo no  essa.
"A minha mulher amamentou perfeitamente os filhos e s a
gravidez e a amamentao me salvaram da tortura dos cimes e
sem os filhos, o que aconteceu, ter-se-ia dado mais cedo... Os
filhos salvaram-na e salvaram-me. Em oito anos deu  luz cinco
filhos. E foi ela quem os amamentou."
- Onde esto agora os seus filhos? - perguntei.
- Onde esto os meus filhos?- repetiu ele com um ar
desvairado.
- Desculpe, talvez lhe custe responder-me.
- No. -me indiferente. Os irmos de minha mulher tomaram
conta deles. No ms entregaram. Deixei-lhes os meus bens, mas
eles no ms entregaram. Sabe, eu sou uma espcie de louco.
Venho agora de casa deles. Vi-os. Mas no ms entregaro.
Porque eu os educaria de modo diferente, para que no fossem
como os pais. Ora  preciso que eles sejam como os pais. Que
fazer? Compreendo que eles ms no entreguem e que no tenham
confiana em mim. Nem sei mesmo se teria fora para os educar.
Penso que no. Eu sou uma runa, um estropiado. No h seno
uma coisa para mim. Eu sei. Sim.  verdade. Eu sei o que os
outros no sabero to cedo. Sim, os meus filhos esto vivos.
E crescem como selvagens, como todos em volta deles. Vi-os
umas trs vezes ao todo. No posso fazer nada por eles. Nada.
Por agora vou para minha casa no Sul. Eu tenho uma casita e um
jardim pequeno.
37
"No. No  to cedo que os outros sabero o que eu sei.
Dentro em breve saber-se- que no Sol e nas estrelas h muito
ferro e outros metais... saber-se- em breve... Mas o que
mascara a nossa vilania...  difcil, muito difcil...
horrivelmente difcil de saber.
"Voc ao menos ouve-me e eu estou-lhe muito reconhecido."
XVI
- Voc falou-me dos filhos. A propsito dos filhos tem-se
espalhado lamentveis mentiras. Os filhos so uma bno do
cu. Os filhos so a alegria da casa.
"Outrora tudo isto era verdade, mas agora no existe nada de
semelhante. Os filhos so um tormento e, nada mais. A maior
parte das mes sentem-no e dizem-no francamente. Pergunte 
maior parte das senhoras da nossa sociedade,  classe das
pessoas abastadas e elas responder-lhe-o de que o medo de que
os filhos adoeam ou morram faz com que elas os evitem. No os
querem ter; e se os tm no os querem amamentar para no se
prenderem e no sofrer. O prazer que lhes proporciona o filho
pela graa do pequenino corpo, das mozinhas, dos pezi-tos,
no compensa o sofrimento que tem com o pensamento que o
pequenino ser possa adoecer. E no falamos na doena de
facto... e da possvel morte. Pesando os prs e os contras
verifica-se que no  vantajoso ter filhos e portanto no so
desejveis. Elas dizem-no abertamente e orgulhosamente
convencidas de que estes sentimentos provm do amor, de um
sentimento nobre de que se sentem ufanas. E no compreendem
que com este raciocnio negam o amor e no mostram seno
egosmo. Elas encontram mais sofrimento do que prazer na graa
do filho. No querem sacrificar-se por um ser amado, elas
imolam a si prprias um ser que devia ser amado. No  amor 
egosmo.
"Quando penso ainda agora na vida e no estado da minha mulher
nos primeiros tempos quando tnhamos trs e depois quatro
filhos e ela estava completamente absorvida por eles
apodera-se de mim um verdadeiro terror. No era vida era um
perigo perptuo mal se aproximava a salvao; surgia logo de
seguida outro perigo, fazamos esforos desesperados...
vivamos em permanente alerta como num navio em perigo de
naufrgio.
"Algumas vezes tive a impresso de que se servia da doena dos
filhos para me vencer. Ela resolvia assim os problemas em seu
proveito, e tudo o que fazia e dizia nessas ocasies era
premeditado.
38
"Os filhos eram uma constante tortura para ela e para mim. No
podia estar sem se atormentar. A necessidade de alimentar os
filhos, de os adormecer, de os defender, existia nela como na
maior parte das mulheres.
"Mas ela no era como os animais: tinha raciocnio e
imaginao.
"A galinha no receia o que pode acontecer aos pintos, porque
ignora as doenas que os podem matar, desconhece os meios
plos quais os homens esto convencidos de que se preservam da
doena e da morte. Ela faz plos pintos o que  natural e
agradvel fazer; os pintos so para a me um motivo de
alegria. Se um pinto cai doente os seus cuidados esto
determinados: aquece-os, alimenta-os. Fazendo isto, ela sabe
que faz tudo o que  necessrio. Se um pinto morre no lhe
interessa saber qual a razo por que morreu, solta alguns
cacarejes e continua depois a sua vida de galinha.
"Mas para as nossas infelizes mulheres, e portanto para a
minha, a coisa  muito diferente. Sem mesmo falar das doenas
e da maneira de as tratar e de educar os filhos, ela procurava
por todos os modos elementos que a auxiliassem em tudo o que
lhes dizia respeito. Nas conversas, nas leituras, procurava
regras de conduta que variam at ao infinito e mudam a todo o
momento.
"Devem alimentar-se sob certas regras, vestirem-se, e beberem,
dormirem, apanharem ar. Ns, mas muito principalmente ela,
descobramos todos os dias novos preceitos. Como se fosse a
primeira vez que nascessem bebs. Fora dessas regras se as
crianas no se alimentavam como devia ser, se no se lhes
dava banho com os preceitos requeridos: e, por fim, se a
criana ficava doente era ela que tinha a culpa, porque no
tinha feito o que era aconselhvel. Isto em perodos de
perfeita sade. E j era um suplcio. Mas se algum dos filhos
caa doente era o fim do mundo. Um verdadeiro inferno.
Admitimos perfeitamente que se trate uma doena. H para isso
uma cincia e homens que sabem, os mdicos; nem todos, mas os
melhores.
"Uma criana adoece, se conseguimos apanhar o mdico, a
criana salva-se. Mas se no se encontra o mdico ou se no se
vive no lugar em que o mdico vive a criana morre, com
certeza.
"No  uma caracterstica s da minha mulher  de todas as
mulheres do seu meio e de todos os lados no se ouve dizer
seno: <Catarina Semenova perdeu dois filhos porque no foi
chamado a tempo, o doutor Zakharitch; Ivan Zakharitch salvou a
filha mais velha de Ivanovna... Em casa dos Petrov
acautelaram-se a tempo. A conselho
39
do mdico separaram todos os filhos, que doutro modo se no
salvariam. Um outro beb fraquinho a conselho do mdico foi
instalar-se no Sul e salvou-se...>
"Como no nos inquietarmos e no se perturbar toda a vida
familiar quando a vida das crianas - s quais se est ligado
de uma maneira animal - depende do que dir Ivan Zakharitch? E
o que dir Ivan, ningum o sabe, como ele prprio no sabe.
Perfeitamente s sabe que no sabe nada e nada pode fazer;
anda s cegas. Mas  preciso que todos estejam convencidos de
que ele sabe qualquer coisa. Se ela fosse um animal no se
atormentaria, e se fosse, de facto, uma pessoa humana, teria
f em Deus, diria e pensaria como as camponesas crentes: <Deus
mo deu, Deus mo tirou; estamos todas nas mos de Deus.>
Pensaria que a vida e morte de todos os seres como o das
crianas escapam ao poder dos homens. Confiaria em Deus e no
se atormentaria, julgando que estava na sua mo poder conjurar
a doena e a morte dos filhos.
"Mas no. Sentia por eles um amor animal, apaixonado. Eram-lhe
confiados mas eram-lhe interditos os meios de os salvaguardar
enquanto outras pessoas os possuam - estranhos cujos servios
e conselhos s podamos adquirir por muito alto preo, e nem
sempre.
"A vida dos filhos foi para a minha mulher e,
conse-quentemente, para mim tambm, uma tortura. Como no nos
atormentarmos? Ela atormentava-se por tudo e por nada.
"Mal saamos de uma cena de cimes ou de uma simples questo e
pensvamos poder viver, ler ou reflectir um pouco e
empreendamos qualquer trabalho, sabia-se de repente que,
Vassia vomitava, que Macha perdia sangue, que Andr tinha uma
erupo, e era o fim. No se podia fazer mais nada.
"A que mdico devamos recorrer? Como isolar as crianas? E
ento comeava a cena dos clisteres, das temperaturas, das
visitas mdicas.
"Mal acabava uma logo comeava outra. No tnhamos vida de
famlia slida nem regular.
"Era, como lhes digo, uma luta constante contra perigos reais
e imaginrios.
"E alis isto o que acontece assim, agora, na maior parte das
famlias.
"Mas na minha tinha uma acuidade particular. A minha mulher
era especialmente me e crdula. A existncia de filhos em vez
de nos facilitar a vida envenenava-a. Os filhos eram para ns
motivo de contnuos dissabores. Desde o momento em que os
filhos apareceram e depois cresceram a maior parte das vezes
s serviram, como pretexto,
40
da nossa desunio. Eles foram no s os elementos de desunio
mas instrumento de combate; batamo-nos, de qualquer maneira,
atravs dos filhos. Cada um de ns tinha a sua preferncia, o
seu instrumento de combate. E ainda no  tudo. Quando os
filhos comearam a crescer e se foram desenhando os seus
caracteres tornaram-se aliados que ns atramos para o nosso
campo. Sofriam horrorosamente, os pobres pequenos, mas na
nossa guerra perptua no tnhamos tempo para pensar neles. A
rapariga pertencia ao meu partido; o mais velho dos rapazes,
que se parecia muito com a me e era o seu preferido,
tornou-se-me muitas vezes odioso."
XVII
- E assim amos vivendo. As nossas relaes foram-se tornando
cada vez mais hostis. E chegmos  situao de serem os nossos
dissentimentos que criaram a animosidade e no a animosidade
que criava os dissentimentos. Eu estava sempre contra o que
ela defendia, e o mesmo se dava com ela.
"Ao quarto ano de casados desistimos de nos compreendermos, de
tentar explicar-nos e nem sequer nos podamos ouvir.
"Nas coisas mais simples mas, principalmente em tudo o que se
tratasse dos filhos, mantnhamo-nos em atitudes irredutveis.
Na maioria dos casos eu poderia ter cedido nas minhas
opinies; mas isso significava dar-lhe razo e era o que eu de
maneira nenhuma queria. No podamos mais, nem ela nem eu.
Cada um de ns entendia ter sempre razo, e eu at me
considerava um santo.
"Qualquer animal podia manter as conversas que ns tnhamos
quando estvamos ss - estou disso completa-mente convencido.
"Que horas so? Que temos hoje para o jantar? .... Onde iremos
passar a noite?... Que dizem os jornais?...  preciso ir
chamar o mdico... A Macha tem a garganta inflamada...
"Se os temas da conversao se afastassem um cabelo deste
colquio, a discusso atingia o auge. Tivemos discusses
violentssimas por causa do caf, da toalha da mesa, da
carruagem, assuntos que, de resto, no tinham o mais pequeno
interesse para ns.
"No fundo de mim borbulhava continuamente um dio hediondo.
Odiava-a por tudo, porque levava a colher  boca, porque
sorvia o ch, porque balanava a ponta do p, como se todos
estes actos fossem indignos.
"Nunca tinha dado conta de que os perodos de dio
41
surgiam regularmente e paralelos aos perodos a que chamamos
amor. Um perodo de amor, um perodo de dio; um perodo de
amor intenso, um perodo longo de dio, pequenas manifestaes
de amor, curto perodo de dio.
"No compreendamos que o amor e o dio eram manifestaes
diferentes do mesmo sentimento animal. Seria horrvel
compreender a situao em que nos encontrvamos, mas, nem
sequer a vamos.
"E ao mesmo tempo a salvao e o castigo do homem.
"Quando levamos uma vida irregular envolve-nos uma neblina que
nos no deixa distinguir o carcter desastroso do nosso
procedimento. Era o que se dava connosco. Ela procurava
atordoar-se na tenso e frenesim das suas ocupaes de me de
famlia: o arranjo da casa, das suas toi-lettes e da dos
filhos, dos estudos e da sade dos pequenos. Por meu lado
tinha a agitao do trabalho, da caa e do jogo. Estvamos
sempre ocupados. Sentamos que, quanto mais tempo estivssemos
ocupados, mais nos feriamos um ao outro.
"<Podes fingir  vontade; massacraste-me toda a noite e eu
tenho de ir para uma sesso>, pensava eu. Por seu turno ela
no somente pensava mas dizia: <Tu todo repimpado; e eu no
consegui pregar olho porque o filho levou a noite inteira a
chorar. >
"Vivamos envolvidos por perptuo nevoeiro, sem vermos a
situao que criramos. Se o que aconteceu no tivesse
acontecido e se continussemos a viver assim at  velhice, ao
morrer pensaramos que tnhamos levado uma vida muito boa, no
particularmente boa, mas como a de toda a gente, e no
teramos compreendido o abismo de infelicidade e odiosa
mentira em que nos debatamos.
"ramos dois forados presos  mesma grilheta, odiando-nos
mutuamente, e mutuamente nos envenenando a existncia e
procurando ocultarmo-nos de ns prprios. Eu desconhecia que a
maior parte dos casais, noventa e nove por cento, vivem no
inferno em que eu vivia e no podia ser de outro modo.
"H uma srie de pormenores nas vidas irregulares como na vida
regular. Quando os pais tornam a vida intolervel 
indispensvel instalar-se a famlia na cidade, no s para a
educao dos filhos como tambm para serem menos possveis as
questes."
Aproximvamo-nos de uma estao.
- Que horas tem? - perguntou ele. Vi as horas; eram j duas da
manh.
- Voc j est cansado?- perguntou ele.
- No. Voc  que deve estar extenuado.
42
- Eu sufoco. Se me d licena vou andar um bocado e beber um
copo de gua.
Atravessou a carruagem cambaleando. Fiquei sozinho e fui
recapitulando o que ele me dissera e de tal forma estava
entregue aos meus pensamentos que o no vi entrar por uma
outra portinhola.
XVIII
- Deixo-me arrastar pelo sofrimento - comeou ele. - As minhas
opinies evoluram e h muitas coisas que encaro, hoje, de
forma diferente, mas eu tenho necessidade de desabafar.
"Instalmo-nos na cidade. A vida na cidade  mais suportvel
para as pessoas infelizes... Um homem pode viver cem anos na
cidade, estar h muito morto e putrefacto sem que ningum d
por isso.
"Nunca h tempo de fazer exame de conscincia. Estamos sempre
ocupados com negcios, com as relaes sociais, com as artes,
com a sade e com as doenas dos filhos e com a sua educao.
 sempre necessrio visitarmos a casa de um ou de outro. Nas
cidades h sempre trs ou quatro grandes acontecimentos a que
se no pode faltar.
"Vivamos melhor assim e sentamos menos o sofrimento que nos
acarretava a coabitao.
"Nos primeiros tempos da mudana tivemos ocupaes milagrosas,
a nova instalao e as frequentes deslocaes da cidade para o
campo e do campo para a cidade.
"Passou assim um Inverno.
"No segundo Inverno, porm, deu-se um acontecimento
insignificante na aparncia, que passou quase despercebido e
foi, afinal, a origem de toda a tragdia.
"Ela adoeceu. Os tratantes dos mdicos aconselharam--na a no
ter filhos e ensinaram-lhe o processo de no conceber. Esta
determinao causou-me horror. Tive de aceitar como boa uma
deciso que me repugnava, mas que tinha atacado com fraco
ardor. Era a ltima justificao para a nossa vida de porcos.
Roubaram-nos os filhos; a nossa situao tornou-se mais
abjecta.
"Ao campons so-lhe necessrios os filhos, ainda que lhes
custe a educ-los e h por isso uma justificao para as suas
relaes conjugais. Para ns, porm, que j temos muitos
filhos e no temos necessidade deles, os filhos s representam
aumento de despesas e so, afinal, uma carga pesada e no
temos, por isso, maneira de justificar a nossa vida de porcos.
E ento ou nos livramos dos filhos artificialmente ou os
consideramos uma calamidade como a consequncia de uma
imprudncia, o que  ainda mais
43
repugnante. Camos to baixo que nem sequer sentimos
necessidade de uma justificao. A maior parte da sociedade,
pretensiosamente, cultivada entrega-se a esta forma de prazer
sem o menor remorso. No h remorso porque no h conscincia
do pecado.
"Se nos podemos exprimir assim s conta a conscincia da
opinio pblica e a do Cdigo Penal. E quase nem uma nem outra
se perturbam. Quase no vale a pena importar-mo-nos com a
opinio pblica. Todos fazem o mesmo: Maria Pavlovna como Ivan
Zakharitch. No devemos por isso ter escrpulos, nem temer o
Cdigo.
"S as raparigas de m vida e as mulheres dos soldados deitam
os filhos recm-nascidos nos poos e nos lagos; esses, est
bem, devem ser castigados, devem ser metidos na cadeia. Entre
ns tudo se faz a tempo e com limpeza.
"Vivemos assim dois anos. O processo usado por aqueles
velhacos deu excelentes resultados. Ela readquiriu a sua
elegncia antiga. Engordou um pouco. Era j uma formosura de
Outono. Ela percebia isso e tinha muito cuidado consigo. Criou
uma beleza provocante e inquietante.
"Possua toda a pujana de uma mulher de trinta anos. No
concebia e alimentava-se bem. O seu aspecto era perturbador.
Era uma gua bem tratada que estivesse muito tempo presa e a
quem tivessem soltado as rdeas, como de resto noventa e nove
por cento das mulheres. Pressentia isso e tive medo."
XIX
De repente levantou-se e foi sentar-se junto da janela.
- Desculpe-me - disse ele e esteve trs minutos com o olhar
fixo. Suspirou profundamente e voltou, de novo, a sentar-se
junto de mim.
A sua fisionomia alterara-se de uma maneira estranha, os olhos
tinham uma expresso implorante e os lbios um sorriso
contrafeito e incompreensvel.
- Estou um pouco fatigado mas quero continuar. Ns temos ainda
muito tempo, o dia ainda no vai nascer. Acendeu um novo
cigarro.
- Ela recomps-se desde que deixou de ter o sofrimento do
parto e as perturbaes da gravidez. Voltou a ter bom senso e
apercebeu todo o mundo criado por Deus, com a alegria que
tinha esquecido ou no soubera viver.
"E preciso no deixar escapar esta ocasio. O tempo urge; no
se pode voltar atrs... Julgo que era isto que ela pensava ou
melhor sentia. Alis, ela no podia nem sentir, nem pensar de
outro modo; fora educada assim; no h
44
outro objecto digno de ateno seno o amor. Quando casou
recebeu uma parte desse amor, mas nem era o amor como ela o
idealizara nem o que lhe haviam prometido. Tinha experimentado
dolorosas desiluses, muitos sofrimentos e acima de tudo os
filhos. Esse tormento tinha-a esgotado completamente.
"Mas eis que os mdicos complacentes lhe fazem compreender que
ela podia passar sem filhos. Ficou contentssima, ps o
conselho  prova e comeou a viver para o amor que ela
conhecia. Mas no era o amor com um marido diminudo pelo
cime, e por todas as espcies de furor. Comeou a pensar no
outro amor, um amor puro completamente diferente do que at a
sentira - era, pelo menos, o que eu pensava.
"Ps-se a olhar em volta  espera que surgisse qualquer coisa.
Notei todas estas modificaes e no pude deixar de me
alarmar.
"Falando indirectamente comigo, como fazia quase sempre - quer
dizer, falando comigo por intermdio dos outros -, defendia a
ideia de que os cuidados das mes eram um erro e que no valia
a pena consagrarmo-nos aos filhos quando se  nova e se pode
ainda gozar a vida, esquecida de que horas antes tinha
defendido opinies contrrias.
"Ocupava-se muito menos dos filhos e sem o frenesim dos
primeiro tempos, cuidava muito mais de si, das suas toilettes,
da sua cultura, do seu aperfeioamento exterior. Comeou a
dedicar-se, com entusiasmo, ao piano que, h muito, pusera de
parte. E tudo comeou assim.
"Voltou de novo para a janela, os olhos cansados mas, retomou,
de novo, o fio da narrativa, fazendo um esforo visvel...
"Foi ento que apareceu o homem..."
Perdeu o sangue-frio e emitiu duas ou trs vezes, pelo nariz,
os sons que lhe eram peculiares.
Compreendi perfeitamente que lhe era doloroso dizer o nome do
homem, de o lembrar e de falar dele, mas dominou-se, e, como
se tivesse conseguido vencer um obstculo que o detinha,
continuou resolutamente:
"Era uma personagem medocre, um miservel, no porque tivesse
alguma importncia para mim, mas porque era tal qual eu
pensara dele, um miservel...
"O facto de ele ser medocre era a prova da irresponsabilidade
da minha mulher. Se no fosse este seria outro. Tinha que se
dar. - Calou-se mais uma vez. Depois continuou. - Era um
msico, um violinista no profissional. Era um meio
profissional meio homem de sociedade.
"O pai era proprietrio e nosso vizinho. Arruinara-se.
45
Trs dos filhos estabeleceram-se; o mais novo, porm, foi para
casa de uma madrinha, em Paris. Entrou para o Conservatrio
porque era dotado para a msica; tirou o curso de violinista e
deu alguns concertos.
"Era um homem... - teve a tentao de dizer mal mas conteve-se
e disse rapidamente: - Eu no sei como ele viveu em Paris; sei
que nesse ano reapareceu na Rssia e veio visitar-me.
"Era um rapaz bonito mas banal... olhos rasgados em amndoa e
hmidos, lbios onde se instalara um sorriso sempre igual,
bigode frisado e penteado segundo a ltima moda; de aspecto
fraco, traseiro bastante desenvolvido como nas mulheres e nos
hotentotes que, segundo creio, tambm so msicos. Correcto e
afvel, muito digno, punha-se sempre  parte em qualquer
discusso. Tinha um ar parisiense, usava botas abotoadas de
lado, gravatas de cores garridas, tudo o que surpreende os
estrangeiros em Paris e que, pela originalidade, atrai as
mulheres. Apresentava-se sempre bem-disposto. Falava por
metforas e sem sequncia, como se soubssemos, de antemo, o
que ele queria dizer e pudssemos concluir por ns.
"Este homem e o seu violino foram os promotores da
catstrofe...
"No processo apresentaram a questo como se o mbil do crime
fosse o cime. Nada disso. No quero dizer que no fosse uma
das causas. Mas no foi tudo. No julgamento decidiram que eu
era um marido ultrajado que matara a minha mulher para
defender a honra ( assim que eles se exprimem).
"Fui absolvido por esta razo.
"Durante as audincias, contudo, tentei explicar-lhes as
verdadeiras razes do crime mas eles supuseram que eu queria
reabilit-la.
"As suas relaes com o msico no tiveram a maior importncia
nem para mim, nem para ela. O que foi importante foi a minha
torpeza. Tudo se deu porque entre ns havia um incomensurvel
abismo, uma terrvel tenso provocada pelo dio recproco que
o mais insignificante pretexto faria explodir.
"Nos ltimos tempos as nossas discusses eram aterradoras por
um lado, e tanto mais impressionantes porque eram seguidas de
cenas de uma sensualidade animal e exasperante. Se no se
tivesse dado a infmia com o msico dar-se-ia com outro.
Insisto neste ponto para que todos os maridos que vivem como
eu vivia ou se entreguem a uma vida de licenciosidade ou matem
as mulheres.
"Se h algum que escape  uma excepo. Antes do cri-
46
me eu estive vrias vezes  beira do suicdio e ela tentou
envenenar-se."
XX
- Assim levvamos a vida.
"Passmos uns tempos tranquilos, pequenas trguas, que no
tnhamos razo aparente para quebrar. De repente conversava-se
a propsito de um co; eu afirmava que o co tinha recebido na
exposio uma medalha de ouro; ela sustentava que no tinha
sido medalha, mas meno honrosa. Levantou-se a discusso.
Passmos de uns assuntos para outros. Fizemo-nos censuras
recprocas: "Sim.... Sim...
"Conheo-te,  sempre a mesma coisa... Tu disseste... Eu no
disse tal... Queres dizer que minto?...
"Depois disto desencadearam-se cenas horrorosas em que tive a
tentao de me suicidar ou de a matar. Era iminente o perigo.
Temia-o como o fogo, e queria-me dominar mas a clera invadia
todo o meu ser. Era o mesmo o estado dela, seno pior;
desvirtuava o sentido das frases. Cada uma das suas palavras
escorria veneno; procurava ferir-me nos pontos mais dolorosos.
E ia aumentando de intensidade as insinuaes e os insultos.
"<Cala-te!", gritei-lhe eu, ou outra qualquer frase...
"Ela saiu correndo do quarto para onde se encontravam os
filhos.
"Procurei det-la e agarrei-a por um brao.
"Fingiu que eu a magoara e gritou:
"<Meus filhos, o pai est a bater-me!>
"Verdadeiramente espantado exclamei:
"<Tu mentes!...>
"Os filhos acorrem aflitos. Ela sossega-os.
"Eu disse-lhe:
"<No faas comdia...>
<"Para ti tudo  comdia... s capaz de matar um homem e
afirmares que est a fazer de morto. Percebo-te muito bem. E 
isso o que tu queres...
"<Oh, se tu estoirasses!...), gritei fora de mim.
"Lembro-me de que estas palavras me aterrorizaram. Nunca me
supus capaz de as pronunciar to grosseiras e to repugnantes.
Admiro-me como me puderam escapar.
"Depois de ter gritado esta frase abominvel meti-me no meu
gabinete, sentei-me e pus-me a fumar. Senti-a passar pela
antecmara e preparar-se para sair. Perguntei-lhe para onde
ia. No respondeu.
"<Que a leve o diabo...>, disse para mim mesmo.
47
"Voltei para o meu gabinete, estiracei-me e voltei a fumar...
"E ento no meu esprito formaram-se planos de vingana, para
me ver livre dela sem que ningum o percebesse. Passei em
revista todo o passado, fumando cigarros uns aps outros.
"Pensei em fugir, esconder-me, partir para a Amrica.
"Depois, de novo me assaltaram os pensamentos de me libertar,
ligando-me a outra mulher, uma mulher diferente. Mas para me
livrar dela era necessrio ou que ela morresse ou que nos
divorcissemos e principiei a estudar os meios de chegar a um
desses resultados.
"Senti que desfalecia, o pensamento dilua-se mas continuava a
fumar.
"Entretanto a vida da casa continuava como sempre...
"A governanta veio perguntar-me:
<"Onde est a senhora? Ela volta?>
"O criado diz-me: <Posso servir o ch?...>
"Fui para a casa de jantar. Os filhos e, principalmente Lisa,
a mais velha e que pressente o que se passa, fitou-me com um
olhar, ao mesmo tempo interrogador e de censura. No trocamos
uma palavra durante o ch.
"Passou-se a tarde... Passou-se a noite sem ela voltar.
"Dois sentimentos cresciam a par, na minha alma: o rancor por
me atormentar a mim e aos filhos e a ansiedade por que
atentasse contra a existncia, embora eu tivesse a certeza de
que ela voltaria.
"Pensei em ir procur-la Mas aonde? A casa da irm?... Seria
estpido ir atormentar mais famlia. Tanto pior para ela se
nos quer atormentar; que sofra tambm.  isso que ela pretende
e s isso... Para a prxima vez far pior...
"E se no est em casa da irm?... Se tentou suicidar--se?...
Se se suicida?...
"Deram as onze horas... a meia-noite...
"No consegui ir para o quarto; seria idiota tentar dormir.
"Comecei a escrever cartas; tentei ler. No consegui fazer
nada.
"Por fim deixei-me estar sentado completamente s,
atormentando-me. Cheguei  ltima forma de desespero. Pus o
ouvido  escuta na esperana de a ouvir chegar. Trs horas...
Quatro horas... No regressou. De manh deixei-me dormir.
Quando acordei no tinha ainda regressado.
"Em casa tudo, aparentemente, corria como antes mas todos
estavam perplexos, e olhavam-me com ar interrogador e, ao
mesmo tempo, cheio de censura.
"Atribuam-me toda a culpa.
48
"Dentro de mim os mesmos dois sentimentos se digla-diavam: o
rancor e a inquietao.
"s onze horas da manh chegou a irm como medianeira. A
histria comeou como sempre:
"<Ela est num estado deplorvel... Que  que tudo isto quer
dizer?... No se passou nada?...>
"Queixei-me do seu carcter impossvel e confessei que lhe no
tinha feito mal.
"<Isto no pode continuar assim....>, disse-me a irm.
"<Isso  com ela; no  comigo. Eu no darei o primeiro passo.
Se ela se quer divorciar, divorciar-nos-emos.>
"A minha cunhada foi-se como tinha vindo.
"Tinha-lhe falado duramente e afirmara-lhe que no daria um
passo, mas quando depois da sua partida vi os filhos plidos,
abatidos, resolvi dar o primeiro passo. Sentia nisso
contentamento mas, no sabia ao certo, como havia de proceder.
"Pus-me a andar de um lado para o outro e a fumar.
"Ao almoo bebi vodca e vinho e comecei a pressentir o fim
para que, inconscientemente, era levado.
"s trs horas da tarde ela voltou. Fui ao seu encontro; no
me deu uma palavra. Julgando-a calma tentei explicar-me, que
me excedera levado pelas suas censuras injustas.
"Numa atitude agressiva disse-me que no vinha para ouvir
explicaes. Vinha para levar os filhos e no podia nem queria
viver comigo.
"Quis convenc-la de que no era eu o culpado, e que fora ela
quem me provocara. Olhou-me friamente e com ar solene
disse-me:
"<No digas mais; tu hs-de arrepender-te. >
"Repeti-lhe:
"<No posso suportar comdias...>
"Comeou a gritar, meteu-se no quarto e fechou-se por dentro.
"Bati. Ningum respondeu. Afastei-me desesperado.
"Meia hora depois Lisa veio ter comigo debulhada em lgrimas.
"<Que h?... Aconteceu alguma coisa?...>
"<No se ouve nada no quarto da mam.>
"<Vamos l.>
"Meti os ombros  porta. O fecho estava mal corrido e os dois
batentes cederam.
"Aproximei-me da cama. Estava sem sentidos meio despida e
calada, numa posio incmoda. Na mesa de toette um
frasquinho de pio vazio. Fizemo-la vir a si. Lgrimas. A
reconciliao...
"Mas dentro da alma de cada um, a mesma animosida-
49
de, multiplicada pelo desespero da ltima questo cujas razes
imputvamos um ao outro.
"A vida retomou o seu ramerro.
"Questes como estas surgiram uma vez por semana, por ms,
todos os dias... E eram sempre as mesmas consequncias.
"De uma das vezes eu tinha j o passaporte. A zanga durava j
h dois dias. Mas houve de novo uma meia explicao, uma meia
reconciliao, e eu desisti da partida."
XXI
- Eis como as coisas corriam, pouco tempo antes de aparecer
esse homem.
"Pouco tempo depois de ter chegado a Moscovo, Trou-khatchevski
veio visitar-me. Era de manh. Recebi-o. Antigamente
havamo-nos tratado por tu. Por vrias vezes ele usou o <tu>,
mas eu acentuei bem o emprego da segunda pessoa do plural e
ele desistiu da primitiva familiaridade.
"Desagradou-me profundamente, logo  primeira vista, mas uma
fora estranha, fatal, arrastava-me para ele, obrigava-me a
no o afastar, pelo contrrio, levava-me a atra-
-lo. De facto era simples evitar as relaes; bastava que o
recebesse friamente durante alguns instantes e despedi-lo sem
o apresentar a minha mulher. Mas no procedi assim e,
propositadamente, levei a conversa para o assunto que lhe
interessava, dizendo-lhe que soubera que ele abandonara o
estudo do violino. Respondeu-me que, mais do que nunca, se
dedicava  msica. Lembrou-se de que eu antigamente tambm
tocava. Respondi-lhe que pusera de parte a msica, mas minha
mulher tocava piano muito bem.
"Coisa assombrosa!... A minha atitude perante ele desde o
primeiro dia do nosso encontro foi o que pode dizer-
-se uma preparao para o que havia de acontecer. Havia em mim
qualquer coisa de premeditado. Observava cada uma das suas
palavras, das expresses que empregava e atribua-lhes muita
importncia.
"Apresentei-o a minha mulher. A conversa, como  natural,
imediatamente deslizou para a msica e ele ps-
-se logo  disposio para a acompanhar.
"Ela apresentou-se, como nestes ltimos tempos, muito
elegante, atraente e de uma beleza inquietadora. Ele
agradou-lhe desde o primeiro momento e ficou encantada por
poder tocar em conjunto. Apreciava muito tocar e, de tempos a
tempos, contratava um violinista do teatro para a acompanhar.
A alegria reflectia-se-lhe no rosto. Mas quan-
50
do reparou na minha reaco e compreendeu os meus sentimentos,
mudou a sua atitude. Comeou assim, entre ns, uma srie de
disfarces.
"Eu sorria amavelmente, mostrando-me encantado.
"Ele olhava para a minha mulher, como sabem olhar os
libertinos para as mulheres bonitas, mas simulava interesse s
pelo assunto da conversa, embora o assunto nada lhe
interessasse.
"Ela, coitada, esforava-se por parecer indiferente, mas a
minha expresso falsamente amvel e sorridente de homem rodo
de cimes e, que ela conhecia perfeitamente, exaltavam-na,
coincidindo com o olhar vido do outro.
"O olhar dela tinha um novo esplendor e, sem dvida, o meu
cime tinha estabelecido entre ambos uma espcie de corrente
elctrica que deixava transparecer no rosto de ambos
expresses e sorrisos muito semelhantes. Tudo era simulado
entre eles.
"Falmos de msica, de Paris, de um sem-nmero de bagatelas.
"Entretanto ele fez meno de se retirar, com um sorriso nos
lbios, inclinando-se um pouco na nossa frente, olhando, ora
para mim, ora para ela,  espera do que iramos fazer.
Lembro-me perfeitamente desse momento, porque eu podia ter
deixado de o convidar e nada teria acontecido.
"Olhei para ele, olhei para a minha mulher e disse
mentalmente: <No penses que tenho cimes de ti... Nem que te
temo, acrescentei interiormente, dirigindo-me a ele e
convidando-o a trazer o violino para acompanhar minha mulher,
numa qualquer noite.
"Ela olhou-me aterrorizada e quis libertar-se, afirmando que
no tocava bem.
"Esta recusa irritou-me e insisti no convite.
"Recordo-me do sentimento bizarro que experimentei ao
contemplar a nuca de Troukhatchevski e o pescoo sobre que
caam os cabelos compridos, apartados no meio; caminhando aos
saltinhos lembrava um pssaro.
"A presena deste homem torturava-me.
"<Mas, afinal, s depende de mim impedir que este homem volto,
pensava eu.
"Mas, proceder assim  confessar que o temo.
"<No. Eu no o temo, seria demasiado humilhantes E insisti
para que ele viesse nessa mesma noite, para o ouvirmos.
"Aceitou o convite e saiu.  noite chegou mas durante algum
tempo eles no conseguiram acompanhar-se porque as partituras
de que precisavam no estavam em nossa casa e minha mulher
precisava de as estudar.
51
"Eu gostava muito de msica e interessava-me conhecer a
execuo dele. Fui eu que lhe preparei a estante e lhe voltei
a pgina. Executaram algumas romanas sem palavras e uma
sonata de Mozart. Ele tocava admiravelmente. Tinha uma
dedilhao perfeita. Um gosto delicado e superior que no
correspondia ao seu carcter. Era muito mais artista que minha
mulher. Aconselhou-a, elogiando cortesmente a sua execuo.
"Minha mulher tomara uma atitude simples e natural, parecendo
s se interessar pela msica.
"Quanto a mim, fingindo interessar-me pela msica, toda a
noite e continuamente fui torturado pelo cime.
"Desde que tinham cruzado o primeiro olhar, desdenhando a sua
condio e as conversaes sociais, despertado o animal que
cada um traz dentro de si, eles interrogavam-se:
<" possvel? Mas sem dvida...>
"Ele no supunha poder encontrar, numa moscovita, uma mulher
to atraente e ficou deslumbrado. No duvidou um instante de
que era correspondido. Tudo consistia em afastar o marido para
os no importunar.
"Se eu fosse um homem honesto no teria compreendido nada
disto, mas como a maioria dos homens antes do casamento, eu
considerava as mulheres como Troukhat-chevski e podia ler-lhes
na alma como num livro aberto.
"Fazia-me sofrer a ideia de que minha mulher sentia por mim s
irritao, entrecortada, uma vez ou outra, de acessos de
sensualidade.
"Por esse homem elegante e de indubitvel talento ela
sentia-se agradavelmente atrada.
"A intimidade que criava a colaborao musical, a influncia
da prpria msica, muito particularmente o violino, que actua
profundamente nas naturezas impressionveis fazia-me
pressentir que esse homem a venceria, a dominaria e a dobraria
 sua vontade, fazendo dela o que desejasse.
"Eu j no o podia ver e sofria horrivelmente. E entretanto
uma fora, que se opunha  minha vontade, constrangia-me no
s a ser delicado mas a ser afvel. No sei se procedia assim
por causa de minha mulher - para provar que o no temia - ou
para me enganar a mim prprio. Ignoro-o. O facto  que nunca
fui simples nas relaes com ele. Eu fugia ao desejo de o
matar, lisonjeando-o.
" ceia servi-lhe vinhos finssimos, elogiei-lhe a execuo,
falei-lhe sempre com um sorriso amvel, convidando-o para
jantar no domingo seguinte e para tocar, acompanhando minha
mulher. Convidaria mesmo alguns
52
amigos para terem o prazer de o ouvir. Assim terminou o
primeiro sero."
Pozdnichev, extraordinariamente emocionado, mudou de posio e
soltou aquele gemido que lhe era particular.
-  estranha a maneira como a personalidade desse homem agiu
sobre mim - disse ele, fazendo um esforo para se acalmar.
"Passado um dia ou dois, ao voltar de uma exposio, senti, ao
entrar, como se uma pedra me casse no corao. No percebi
porqu. S depois de ter entrado no meu gabinete me ocorreu
que vira qualquer coisa que me lembrara Troukhatchevski.
Voltei ao vestbulo para confirmar a minha suspeita. No me
tinha enganado. Pendurado no cabide estava o casaco dele. Era
impossvel ter-me passado despercebido porque eu fixava
doentiamente tudo o que lhe dissesse respeito.
"Em vez de atravessar a sala de entrada, dirigi-me ao quarto
de estudo. Lisa, a minha filha mais velha, estava a ler e a
ama, perto da mesa com o mais pequenino, fazia girar uma
tampa.
"Eu ouvia os harpejos e o rudo das vozes atravs da porta
fechada. Pus-me a escutar mas no distingui as palavras. Sem
dvida o piano era um pretexto para abafar as palavras e,
talvez, os beijos.
"Meu Deus! Neste momento cresceu em mim uma raiva surda.
Quando me lembro do animal furioso que reapareceu, o horror
abate-me.
"Apertou-se-me o corao bruscamente, tive a sensao que ele
deixara de bater. Depois voltou a bater violentamente. O
sentimento dominante nos momentos de clera era o
enternecimento por mim prprio. Diante dos filhos!... Diante
dos criados!...
"Nesse instante eu devia meter medo, porque Lisa olhava para
mim aterrorizada.
<"Que devo fazer?>, perguntei a mim prprio. <Entrar?... 
impossvel... No sei o que faria... Mas no podia
afastar-me.>
"A criada das crianas olhava-me espantada, compreendendo a
minha situao.
"<E impossvel no entrar...>, disse eu, e abri a porta
subitamente.
"Ele estava sentado ao piano, tocando harpejos; os dedos muito
brancos e altamente recurvados. Ela estava de p, junto ao
piano, e seguia a partitura. Ou me pressentiu ou me ouviu e
olhou para mim. Teve medo mas dissimulou ou no teve realmente
medo?... O que  certo  que se no mexeu e nem levemente
pestanejou. Corou um pouco.
"<Como estou contente por teres vindo!... Ns estva-
53
ms a escolher o que havemos de tocar no domingo> disse-me ela
com uma expresso que no usaria se estivssemos ss. Esta
circunstncia e o facto de ela ter empregado o <ns>,
referindo-se a ele e a ela, perturbaram-me. Cumprimentei-o sem
pronunciar uma palavra. Correspondeu ao meu cumprimento com um
sorriso que me pareceu francamente irnico e comeou a
explicar-me que estavam indecisos sobre o que deveriam
executar - uma obra clssica e difcil como uma sonata de
Beethoven para piano e violino ou trechos mais curtos e de
menos responsabilidade. Aparentemente tudo era natural e
simples e no havia razo para me escandalizar. Mas eu estava
convencido que tudo era mentira e disfarce e tinham j
combinado a maneira de me enganar.
"As convenes sociais favorecem a maior e mais perigosa
intimidade entre homens e mulheres e so torturan-tes para os
homens ciumentos (na nossa sociedade todos os homens so
ciumentos).
"Expor-nos-amos ao ridculo se tentssemos impedir a
intimidade nos bailes, a intimidade entre o mdico e a doente,
a intimidade criada pelo estudo em comum das artes, da pintura
e, muito particularmente, da msica.
"Entregam-se ao estudo da mais bela das artes duas almas e a
mais profunda intimidade cresce; nada disto tem aparentemente
nada de repreensvel ou censurvel; s um marido estpido e
ciumento pode reconhecer nesta intimidade qualquer coisa de
menos digno. Contudo sabe--se que a maioria dos casos de
adultrio, na nossa sociedade, tem a sua origem na intimidade
artstica e intelectual de homens e mulheres.
"Trespassei-lhes a perturbao que me acometera. Durante
momentos no pude articular uma palavra.
"Eu era como uma garrafa voltada para baixo que no deixa
correr a gua por estar muito cheia. Tinha a tentao de a
insultar e de correr com ele mas, simultaneamente, compreendia
que era necessrio ser afvel e corts.
"Assim procedi. Fingi aprovar tudo o que disseram e, sob a
aco de um sentimento bizarro, tratei-o com tanta mais
afabilidade quanto mais as suas palavras e a sua presena me
torturavam. Afirmei-lhe que confiava no seu bom gosto e
aconselhei minha mulher a proceder do mesmo modo. Depois das
minhas palavras ficou s o tempo necessrio para tentar
desvanecer a impresso dolorosa da minha entrada sbita na
sala, do meu aspecto desorientado e do meu mutismo.
Despediu-se asseverando que ficara escolhido j o programa que
tocariam no dia seguinte. Eu estava convencido, no entanto,
que comparado ao que
54
os preocupava a escolha do trecho que haviam de tocar lhes era
totalmente indiferente.
"Conduzi-o at ao vestbulo com uma delicadeza demasiadamente
vincada (como no conduzir para fora de casa um homem que
vinha perturbar e comprometer a felicidade de uma famlia
inteira?...)
"Apertei-lhe a mo efusivamente, a sua mo branca e flcida."
XXII
- Durante todo o dia no dirigi a palavra a minha mulher. No
podia. A sua presena provocava-me um tal dio que sentia medo
de mim prprio.
"Ao jantar, em frente dos filhos, perguntou-me quando me ia
embora...
"Eu tinha de tomar parte num congresso, na provncia.
Disse-lhe quando tencionava partir. Ela pretendeu saber se era
necessrio alguma coisa para a viagem. No respondi. Fiquei 
mesa, sem pronunciar uma palavra. Retirei--me para o meu
gabinete.
"Nos ltimos tempos ela nunca vinha aos meus aposentos,
principalmente depois do jantar.
"Estendi-me no div. Tinha a alma cheia de rancor.
"De repente senti aproximarem-se uns passos conhecidos. Um
pensamento diablico me ocorreu. Tal como a mulher de Urias,
ela queria esconder o pecado j consumado e, por essa razo,
vinha ter comigo a esta hora imprpria.
"<Ser possvel que ela venha aqui?>, perguntei a mim mesmo,
sentindo que os passos se aproximavam cada vez mais. Era
verdade. Eu tinha razo. E na minha alma o dio crescia de uma
maneira indizvel. Os passos iam-se aproximando cada vez mais.
Certamente ir para o salo... No entrar... Mas a porta
rangeu e, no limiar, surgiu a silhueta alta e harmoniosa. Na
sua fisionomia transparecia o desejo de agradar, que contudo
pretendia esconder, mas de que eu conhecia, muito bem, o
significado.
"Parecia-me que sufocava to longo foi o momento em que retive
a respirao. Sem deixar de a fitar, abri a cigarreira e
acendi um cigarro.
<"Ento?... Venho passar um bocadinho contigo e acendes um
cigarro?...>
"Sentou-se no div a meu lado e encostou-se a mim. Afastei-me
para lhe no tocar.
"<Eu sinto perfeitamente que ests aborrecido por causa do
concerto de domingo>, disse ela.
<"De modo nenhum... >, respondi-lhe.
55
"<Tu julgas que eu no percebo?...>
"<Muito bem. Felicito-te. Quanto a mim, no percebo mais nada
a no ser que te comportas como uma mulher
"<Se continuas a falar como um carroceiro vou-me embora.>
"<Vai. Fica sabendo que se tu no ligas importncia 
dignidade da famlia, eu, no por ti (que o diabo te leve!),
mas pela prpria famlia, pela sua honra, tenho de me
importar.)
"<Como?... Como?...>
<"Vai-te embora pelo amor de Deus. Vai-te...>
"Eu no sei se ela compreendeu as minhas aluses, ou realmente
no compreendeu porque se ofendeu e ficou vexadssima.
Levantou-se mas, em vez de sair, ficou de p, no meio do
quarto.
<"Decididamente, tu ests a tornar-te impossvel) comeou ela,
<tens um carcter que s os santos poderiam suportar...)
"E, esforando-se por me ferir profundamente, referiu--se ao
meu procedimento com a irm (ela sabia que me atormentava,
relembrando as palavras grosseiras que, num momento de
exaltao, eu proferira).
"<Depois do que se passou nada me admira, vindo de ti...>
"< assim mesmo. Ofendes-me, humilhas-me, desonras-me e atiras
com as culpas para cima de mim.>
"E, subitamente, fui invadido por um sentimento de dio to
horrvel que, pela primeira vez, experimentei a sensao de
expressar fisicamente esse dio.
"Ergui-me bruscamente e aproximei-me. Mas, no momento preciso
em que me levantei tive a conscincia do que ia fazer e pensei
se valeria a pena.
"Mas reconsiderei e disse para mim: <Talvez seja salutar. Ela
ter medo>, e assim, foi crescendo em mim a clera.
<"Foge ou mato-te!>, gritei e, aproximando-me dela agarrei-a
por um brao.
"Eu tinha propositadamente exagerado o tom de fria das minhas
palavras
"E devia ter uma aparncia de endemoninhado, porque ela perdeu
o sangue-frio, no teve fora para sair e limitou-se a dizer:
<"Vassia, que tens tu, que te aconteceu?...)
<"Sai-me daqui!", gritei com fora. <S tu s capaz de me pr
neste estado. Eu no respondo por mim...>
"Deixei-me vencer absolutamente pela raiva, senti-me como
embriagado e tive vontade de fazer qualquer coisa
56
de extraordinrio que pudesse mostrar a extenso do meu
desespero.
"Tinha o desejo terrvel de lhe bater, de a matar, mas sabia
que era impossvel e para dar vazo  minha clera agarrei num
pesa-papis que estava sobre a mesa, atirei-o para o cho, na
direco dela e gritei:
"<Sai-me da vista!...>
"Ela afastou-se. No saiu. Parou  entrada da porta.
"Enquanto ela me podia ver, agarrei de cima da mesa em
diferentes objectos, no tinteiro, nos castiais e atirei-os ao
cho, gritando:
"<Vai-te, bruxa! Eu no respondo por mim...>
"Ela saiu. No momento em que a deixei de ver acalmei-me.
"Passada uma hora a criada dos pequenos veio prevenir-me de
que minha mulher estava com uma crise de nervos. Fui v-la.
Ora soluava, ora se ria; no podia falar e tremia
convulsivamente. No era comdia; ela estava realmente doente.
"De manh acalmou-se; reconcilimo-nos sob a influncia do
sentimento a que chamamos amor.
"Quando lhe confessei que tinha cimes de Troukhat-chevski ela
no se perturbou, ps-se a rir com a maior naturalidade, de
tal forma lhe parecia estranho que algum se pudesse apaixonar
por um tal homem.
"<Acreditas possvel que uma mulher decente se possa apaixonar
por um homem como Troukhatchevski? O nico sentimento possvel
 o prazer de o ouvir tocar. >
"<Se tu quiseres, no o tornarei a ver e  fcil impedi-lo de
vir a nossa casa; basta que o previnas de que estou adoentada,
e no posso tocar. S  aborrecido no domingo por termos
convidado muita gente e se poder pensar que temos medo dele e
que o consideramos perigoso. Sou realmente bastante orgulhosa
para poder permitir que se pense tal coisa. >
"Ela no mentia. Ela acreditava no que dizia. Queria
convencer-se da verdade das suas palavras, e fazer nascer em
si prpria o desprezo por ele e defender-se do perigo que,
inconscientemente, temia. No o conseguiu. Tudo estava contra
ela e, em particular, a msica maldita. Naquele dia tudo
acabou em bem."
XXIII
-  escusado dizer que me sentia vaidoso; se no somos
vaidosos na vida quotidiana, que  a nossa vida, no h razo
de viver.
"No domingo seguinte ocupei-me com muito prazer
57
das preparativos para o jantar do nosso sero musical. Fiz eu
prprio os convites e as compras.
"Pelas seis horas comearam a chegar os convidados. Ele entrou
um pouco mais tarde, de casaca, o peitilho da camisa abotoado
com brilhantes de muito mau gosto. Tinha um grande -vontade,
correspondendo a todos com um ar afectuoso, sorridente e
compreensivo dando a entender que o que fazamos e dizamos
era justamente o que esperava.
"Nessa noite notei com particular alegria tudo o que nele era
defeituoso.
"Essas observaes contriburam para me sossegar e
mostravam-me que minha mulher o considerava, com razo, de um
nvel to inferior que no podia - conforme me afirmava -
baixar-se a ele. Eu no tinha, por isso, razo para ter
cimes.
"Alm de que o ltimo sofrimento arrasara-me e eu sentia a
necessidade absoluta de repouso; precisava de acreditar na
minha mulher; e acreditava.
"Durante todo o jantar, na primeira parte do sero, antes de
comear o concerto, embora eu no tivesse cimes havia em mim
qualquer coisa de afectado nas atitudes que tomava.
Inconscientemente eu vigiava todos os actos deles.
"O jantar foi, como todos os jantares, uma cerimoniosa maada.
"Como me lembro de todos os pormenores desse triste sero!...
"Ele chegou. Abriu o estojo, tirou para fora a cobertura
bordada por uma admiradora e comeou imediatamente a afinar o
violino. Minha mulher sentou-se ao piano com um ar
.aparentemente indiferente e sob o qual pretendia esconder a
sua timidez... timidez provocada pela destreza do violinista.
"Depois dos <ls> habituais da afinao, foram os pizzi-catti
do violino e por fim colocaram-se as partituras nas estantes.
Recordo o olhar que trocaram; voltaram-se um instante para a
assistncia, disseram umas breves palavras e comearam o
concerto.
"Ela atacou o primeiro acorde. Ento a fisionomia de
Troukhatchevski tomou uma expresso simptica, severa, sria,
e atenta aos prprios sons do violino. Fez vibrar as cordas
com os dedos finos e geis e respondeu aos acordes do piano.
Assim comeou tudo."
Pozdnichev parou de novo. Depois emitiu vrias vezes os sons
que lhe eram peculiares - gargalhada ou soluo abafado. Quis
continuar. Fungou. E parou de novo.
- Tocaram a Sonata a Kreutzer, de Beethoven.
"<Conhece o primeiro presto? Conhece-o?...", gritou ele.
58
<Que coisa horrvel essa Sonata, sobretudo, esse andamento...
A msica  qualquer coisa de horrvel...>
"O que  exactamente a msica?... Eu no o apreendo.
"Qual  a sua aco?
"Dizem que a msica actua elevando a alma... Que falsidade!...
Que estupidez!
"A msica actua de uma maneira terrvel, eu falo por mim.
"A msica no eleva a alma. A msica tambm no diminui a
alma. A msica exaspera-a. Nem sei como me hei-de explicar...
"A msica obriga a esquecermo-nos da nossa verdadeira
personalidade, transporta-nos a um estado que no  o nosso.
Sob a influncia da msica temos a impresso de que sentimos o
que no sentimos; que compreendemos o que na realidade no
compreendemos; que podemos o que no podemos.  como o bocejo
ou o riso. No temos sono mas bocejamos quando vimos algum
bocejar. No temos vontade de rir, mas rimo-nos, ouvindo rir.
A msica transporta-nos, de surpresa e imediatamente, ao
estado de alma em que se encontrava o artista no momento da
criao, confundimos a nossa alma com a dele e passamos de um
estado a outro sem saber por que o fazemos.
"Beethoven quando escreveu a Sonata a Kreutzer sabia por que
se encontrava naquele estado de criao, que o levava 
prtica de determinados actos que tinham para ele um
significado. Para ns que somos levados pela msica no tem
significao.
"A msica exaspera, no conclui.
"Se tocam uma marcha militar e os soldados marcham ao seu
ritmo, a msica atinge o seu fim. Se a msica  de dana e
danamos, a msica atinge o seu fim. Se se toca a missa e
comungamos a msica atinge o seu fim. De outro modo  uma
sobreexcitao. Por isso s vezes a msica exerce uma aco
tremenda... A msica na China  negcio de Estado. E assim
devia ser. No  de admitir que qualquer desconhecido possa, a
seu bel-prazer, hipnotizar uma ou vrias pessoas e as maneje.
E que por vezes o hip-notizador seja o primeiro homem de maus
costumes que se encontrou no caminho.
"Tomemos para exemplo a Sonata a Kreutzer - primeiro
andamento. Deve tocar-se este presto numa sala entre mulheres
decotadas; aplaudi-la; comer gelados; contar a ltima anedota
da semana?
"Esses trechos s deviam ser tocados em momentos graves e
quando  necessrio realizar aces que estejam em harmonia
com o assunto da msica. De outro modo esse chamamento
inoportuno a sentimentos que no tm
59
ensejo de se manifestar no podem ter seno um resultado
nefasto. Sobre mim, pelo menos, produziu um efeito desastroso.
Sentimentos novos, possibilidades at ento desconhecidas
revelaram-se em mim. Tudo era diferente da vida que at ento
eu vivera. Eu no podia avaliar o elemento que descobrira mas
a conscincia deste novo estado dava-me alegria.
"As fisionomias que eram sempre as mesmas, e, no nmero das
quais havia a de minha mulher e a de Trou-khatchevski
apareciam-me com um aspecto diferente.
"Depois do presto executaram o andante que  belo mas sem
originalidade, com variantes banais e um final fraco.
"Em seguida, a pedido dos convidados executaram uma elegia de
Ernst e vrios pequenos trechos. Todas estas peas eram muito
boas, mas nenhuma produziu, em mim, nem um dcimo da impresso
que me causou a primeira obra. Tudo o mais que senti estava
subordinado  impresso que me causara a Sonata.
"Sentia-me leve, alegre toda a noite. Quanto a minha mulher,
nunca a tinha visto como naquela noite. Os olhos brilhantes,
um leve sorriso extasiado, uma espcie de abandono total
enquanto tocava e uma severa expresso quando terminou o
concerto. Vi tudo isto mas no lhe liguei nenhuma importncia
particular.
"Ela experimentava as mesmas sensaes que eu. Sentimentos
novos e desconhecidos at a surgiam dentro de mim e dela.
"O sero acabou muito bem. Cada um regressou aos seus
aposentos.
"Troukhatchevski ao saber que tinha de partir para um
congresso na provncia disse que esperava ter o prazer de
renovar, quando regressasse, o sero que lhe havamos '
proporcionado to agradavelmente.
"Conclu das suas palavras que ele no voltaria a minha casa
enquanto eu estivesse por fora. Esta resoluo foi-me
particularmente agradvel. No nos tornaramos a ver,
porquanto eu no regressaria antes da partida dele. Pela
primeira vez eu lhe apertei a mo com verdadeira alegria e lhe
agradeci os momentos de agradvel convvio que tivramos. Os
cumprimentos de despedida a minha mulher foram convenientes e
naturais. Tudo parecia perfeito.
"Eu e minha mulher sentamo-nos contentes pela forma como
decorrera o sero."
XXIV
- Parti no dia seguinte para o congresso. Despedi-me de minha
mulher nas melhores disposies.
60
"Na capital do distrito eu tinha sempre muito trabalho;
cheguei a passar dez horas sentado  secretria. Era uma vida
 parte, um pequeno universo particular.
"No dia seguinte ao da minha chegada trouxeram-me uma carta de
minha mulher. Falava-me dos filhos, de um nosso tio, da
criada, das despesas que fizera, e entre outras coisas, como
de uma coisa banal, referia-se a uma visita de
Troukhatchevski. Tinha ido levar-lhe umas partituras que lhe
prometera. Tinha-se tambm oferecido para a acompanhar, mas
ela recusara. Eu no me lembrava que ele lhe houvesse
prometido tais partituras. Julgava at que ele se despedira
definitivamente. Esta notcia chocou-me desagradavelmente.
Tinha, no entanto, que fazer e no tive tempo de pensar mais
na carta.  noite, porm, quando reli a carta, reflecti no que
me escrevera minha mulher e a carta ento pareceu-me afectada.
Estranhei que Troukhatchevski tivesse ido visitar minha mulher
na minha ausncia.
"A fera raivosa do cime ps-se a rugir dentro de mim. Mas
tive medo dela e prendi-a.
"<Que sentimento abjecto  o cimeb, disse para comigo. <Nada
mais natural do que o que ela me escreveu.)
"Deitei-me. Pensei s nos assuntos que tinha para resolver no
dia seguinte.
"Quando vinha tomar parte nestes congressos o que mais me
custava era ter que dormir num quarto que no era o meu. Desta
vez, porm, adormeci rpida e profundamente.
"Nunca lhe aconteceu por vezes ser acordado por uma espcie de
descarga elctrica que nos atravessa? Acordei debaixo dessa
impresso. Levantei-me com o pensamento em minha mulher, no
amor que, apesar de tudo, sentia por ela, e em
Troukhatchevski. Acabrunhava-me o pensamento de que entre ela
e ele alguma coisa se consumara. O terror e o dio
apertavam-me o corao. Tentei acalmar-me.
"<Que tolice!>, disse para comigo. <Isto no tem razo de ser!
No h nenhum fundamento! No  possvel. Nada se passou! Como
posso rebaixar-me e rebaix-la, pensando tais horrores?>
<"Ele  um violinista a quem se paga, conhecido por ser um
pobre homem. >
"<Minha mulher  uma senhora respeitvel, uma honrada me de
famlia. Que absurdo!>, pensava eu.
"Por outro lado eu considerava que casara com minha mulher por
ter necessidade dela, e que a necessidade que eu sentia tambm
outros a sentiam e, entre muitos, esse msico.
"No era casado. Tinha uma esplndida sade. Lem-
bro-me perfeitamente do prazer com que ele trincava os ossos
das costeletas e a avidez com que bebia o vinho que lhe
deitavam nos copos. Homem bem alimentado, sem princpios, ou
melhor, tendo como princpio gozar todos os prazeres da vida.
"A msica, esse terrvel excitante, a forma mais perfeita do
desejo deveria sem dvida ser um elo entre eles. O que a pode
conter a ela? Nada. Pelo contrrio, tudo a atrai.
"Minha mulher foi sempre para mim um enigma. Eu no a
conhecia, seno no perodo animal. Aos animais ningum os pode
conter.
"E assim me foram vindo  memria pormenores esquecidos. A
fisionomia dos dois quando acabaram de tocar um trecho
apaixonante cujo autor no me recordo, e que  uma pgina
sensual, at  impudncia.
"<Como me atrevi a partir?...>, pensei, depois de ter notado
estes pormenores. <Tudo se consumou entre eles, esta noite.>
"Lembrava-me do sorriso de felicidade, tnue e amoroso que ela
tinha enquanto passava o leno pelas faces rosadas, quando me
aproximei do piano.
"Eles,  certo, evitavam olhar-se. Somente durante a ceia,
quando ele lhe servia a gua, os olhos se encontraram e entre
si trocaram um sorriso quase imperceptvel. Lembrava-me com
horror desse olhar e desse sorriso que captara.
"Dentro de mim uma voz dizia-me:
"<Tudo acabou.> Mas outra voz me segredava uma outra
linguagem.
<"O que te prende? E impossvel...)
"No pude mais estar s escuras. Acendi um fsforo. E senti
verdadeiro horror nesse quarto pequeno. Fumei um cigarro. 
sempre assim quando o pensamento gira em volta de contradies
insolveis. Fuma-se. Acendi cigarros uns aps outros.
Envolvi-me num nevoeiro em que os pensamentos se suspendiam,
sem nenhuma consistncia. Em toda a noite no dormi uma hora.
s cinco horas da manh compreendi que no podia por mais
tempo man-ter-me nesta situao. Resolvi partir. Levantei-me.
Acordei o criado. Mandei-o chamar uma equipagem. Escrevi para
o congresso, pedindo que me fizessem substituir por outro
congressista. Fora chamado a Moscovo subitamente.
"s oito horas subia para um tarantass e partia."
XXV
O revisor entrou. E tendo notado que a luz se extinguia
62
acabou por a apagar completamente sem a substituir. L fora o
dia comeava a aparecer.
Pozdnichev manteve-se calado enquanto o revisor ficou na
carruagem, suspirando profundamente. S tornou a falar quando
o revisor saiu. No nosso compartimento, completamente s
escuras, s se sentia o estremecimento dos vidros produzido
plos solavancos do comboio e o ressonar regular do
caixeiro-viajante. Na meia-luz do amanhecer eu no o via.
Somente a sua voz cada vez mais emocionada, cada vez mais
dorida, se ouvia acima de todos os outros sons.
- Eu tinha de percorrer trinta e cinco verstas de carruagem e
oito horas de caminho-de-ferro. O percurso de carruagem foi
agradvel.
"Estava um dia de Outono frio. O sol era brilhante. Era a
poca em que as rodas dos carros vo deixando sulcos plos
caminhos - voc conhece certamente. A luz era esplndida, o ar
vivificante. Eu sentia-me perfeitamente livre dentro do
tarantass.
"Quando o dia nasceu e me pus a caminho sentia-me
bem-disposto.
"Olhando os campos, reparando nos cavalos, vendo as pessoas
que se cruzavam no caminho, esquecia-me ao que ia. De tempos a
tempos, tinha a impresso de que era uma simples viagem de
recreio e nenhum outro motivo me levava para casa.
"Sentia alegria por me esquecer. Se porventura me vinha ao
pensamento o que ia fazer dizia para mim:
"<No pensemos... Depois se ver.>
"Durante o percurso, a meio do caminho, deu-se um desastre. O
tarantass avariou-se e foi necessrio repar-lo. Este
incidente teve muita importncia. Em vez de chegar a Moscovo
s cinco horas, como tinha previsto, cheguei  meia-noite;
cheguei a minha casa  uma hora, porque perdi o expresso e
tive de apanhar um omnibus. Procurar abrigo, assistir s
reparaes, pagar, tomar ch na estalagem, dois dedos de
cavaco ao estalajadeiro tudo contribuiu para me distrair. Ao
fim do dia tudo estava pronto, e de novo, nos pusemos a
caminho.
"A viagem de noite ainda foi mais agradvel.
"Caa neve e a lua iluminava a estrada lindssima. Os cavalos
eram esplndidos e o cocheiro um bom tagarela. Caminhava,
saboreando estes momentos sem quase me lembrar do que me
esperava, ou talvez, eu experimentasse esta alegria tanto mais
intensa quanto sabia que dizia adeus para sempre ao que na
vida  belo.
"A paz que neste momento gozava parou no mesmo momento em que
parou a viagem de tarantass. Desde que
63
me meti no comboio tudo se transformou. O percurso de comboio
foi torturante. Nunca o poderei esquecer. No sei se era a
trepidao do comboio que me excitava, se a ideia de que me ia
aproximando de casa. Desde que subi para o comboio no pude
mais dominar a imaginao. De uma maneira vivssima
pintavam-se-me quadros, cada uns mais lbricos um do que o
outro e que me excitavam o cime. O assunto era sempre o
mesmo, o que nessa noite se passava em minha casa e a maneira
como ela me enganava. O cime, a raiva, a indignao e o
sentimento de humilhao ao representarem-se-me estas imagens
disputavam-se, dilacerando-me o corao, como abutres
esfaimados. Eu no podia deixar de os ver; via-os sempre e
quanto mais as imagens se detinham no meu pensamento mais eu
acreditava na sua realidade. Um demnio comprazia-se em me
torturar, trazendo-me  memria as piores cenas de luxria.
"Veio-me ento  lembrana a conversa que tivera com um irmo
de Troukhatchevski em que lhe perguntara se frequentava casas
de m nota; ele respondera que um homem no tem necessidade de
ir a lugares anti-higini-cos e srdidos, onde corre risco de
apanhar doenas, quando  fcil encontrar uma mulher honesta
da qual nada h a temer.
"Eu agora pensava que o irmo tinha encontrado essa mulher, a
minha prpria mulher. No era muito nova, faltava-lhe um dente
e estava um pouco alentada, mas - que fazer? -  preciso
aproveitar as ocasies.
"<Sim>, pensava eu. <Ele condescende em a aproveitar para
amante... no tem perigo para a sua sade.>
"<No!...  impossvel!... Como posso pensar tais coisas?...>,
pensava eu horrorizado. <No tenho razes para pensar nada
disto... Ela afirmou-me que se sentia humilhada por eu ter
cimes dele.>
"Eram mentirosos os seus protestos... Ela mentia-me... E de
novo me vinham ao pensamento os mais lbricos quadros.
"No meu compartimento iam mais dois passageiros, um homem e
uma senhora, ambos pouco faladores. Desceram na primeira
estao e eu fiquei s.
"Era uma fera enjaulada.
"Levantava-me. Sentava-me. Debruava-me da portinhola, batia
os ps como se os meus movimentos contribussem para apressar
a marcha do comboio.
"Os vidros e os bancos do comboio estremeciam a todo o
momento, exactamente como acontece a estes."
Pozdnichev levantou-se, deu duas ou trs voltas febris e
voltou a sentar-se.
64
- Toda a carruagem me metia pavor. Sentia-me gelar...
Sentei-me. Tentei pensar noutra coisa. Por exemplo no dono da
estalagem onde tinha tomado ch. Mas surgiu-me na imaginao o
criado com a sua barba comprida e o neto, um garotinho da
mesma idade que o meu Vassia. O meu Vassia!... Ele com certeza
assiste  me ser beijada pelo msico.
"Que se passar na sua pobre alma? Ela no faz caso. Est
apaixonada. E de repente tudo em mim se reavivou.
"No... No... Eu quero pensar na consulta no hospital. Ontem
um doente queixou-se ao mdico.. O mdico tinha os mesmos
bigodes que Troukhatchevski...
"E o pensamento voltava ao mesmo ponto. Com que impudncia
eles me enganam!
"E tudo voltava de novo. O principal sofrimento era a
ignorncia, a dvida, a duplicidade no facto de eu prprio no
saber se a devia amar, se a devia odiar.
"O meu sofrimento era to horrvel que me veio a tentao -
lembro-me perfeitamente - de descer  linha, deitar-me sobre
os rails sob o comboio e acabar definitivamente. Esta ideia
dava-me satisfao. No teria mais dvidas nem hesitaes.
Reteve-me a piedade que sentia por mim prprio e que fez
nascer imediatamente o dio contra a minha prpria mulher. Por
ele, eu sentia o sentimento bizarro, misto de dio e da
conscincia da minha humilhao e da sua vitria. Por ela eu
sentia um dio pavoroso.
<"Eu no quero suicidar-me. No quero deix-la. E preciso que
ela sofra, pelo menos um pouco, para que compreenda o que eu
sofro.>
"Desci em todas as estaes para mudar de ideias. Numa delas
vi que serviam bebidas no bufete, fui imediatamente tomar uma
vodca. Perto de mim um judeu bebia tambm. Meteu conversa e
para no ficar sozinho no meu compartimento acompanhei-o 
terceira classe, suja, cheia de fumo e juncada de invlucros
de sementes de girassol. Sentei-me a seu lado. Ele conversou
durante muito tempo. Contou-me inmeras anedotas. Escutava-o,
mas sem compreender, porque ia seguindo o fio dos meus
desgraados pensamentos. A certa altura ele percebeu e quis
prender--me a ateno. Nessa altura levantei-me e voltei para
o meu compartimento.
"< preciso que eu me concentre. Se o que eu penso  a verdade
tenho razo para me torturar?)
"Sentei-me com a inteno de pensar calmamente, mas depressa,
em vez de pensamentos calmos tudo recomeou. As mesmas imagens
me perseguiam, as mesmas representaes...
"Entretanto pensava:
65
"<Quantas vezes fui atormentado (lembrava-me ento das cenas
de cimes que tantas vezes sentira e em tudo semelhantes a
esta) e depois tudo terminava em bem.>
<"Ser talvez, hoje, como outrora. Certamente vou encontr-la
a dormir sossegada; ela acordar contente por me voltar a ver
e as suas palavras, o seu olhar dar-me-o a certeza de que
nada se ter passado e que tudo eram tolices forjadas pela
minha imaginao doentia. Ah! Como seria maravilhoso que, tudo
se passasse assim!>
"Mas no. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez no ser
assim - dizia-me uma voz, e tudo recomeava. O que era
horrvel  que eu considerava-me com direito incontestvel
sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu prprio corpo
e ao mesmo tempo reconhecia que aquele corpo no me pertencia,
que ela no podia dispor dele como quisesse e que o desejo que
ela manifestava no era conforme ao meu. Se ela no tivesse
tido nada com ele mas o desejasse, e eu sabia que ela o
desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido alguma
coisa ento eu o saberia e no mais haveria incertezas. Eu j
no sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer."
XXVI
- Antes da ltima estao, quando o revisor veio controlar os
bilhetes, juntei as bagagens e sa para a plataforma. O
sentimento do que se ia passar, aumentou a minha emoo. Tinha
frio de tal modo que batia os queixos e tremia-me o corpo. Sa
da gare maquinalmente juntamente com a multido. Tomei um
fiacre, subi e parti. Durante o percurso ia olhando os raros
passeantes daquela hora nocturna, os porteiros, as sombras
projectadas plos revrberos e pela minha prpria carruagem,
umas vezes pela frente, outras vezes pela parte de trs. No
pensava em nada. Depois de ter percorrido meia versta, tive
frio nos ps e lembrei-me de que tinha tirado as minhas pegas
de l e as tinha metido no saco. E agora onde estava o saco? E
o meu cesto? Lembrei-me ento que na precipitao me esquecera
das bagagens. Pensei que no valia a pena voltar para trs e
de que tinha em meu poder a guia.
"Apesar de todos os meus esforos, no posso lembrar--me do
estado em que me encontrava ento. Em que pensava eu? Ignoro.
Lembro-me somente que tinha o sentimento do que ia acontecer,
qualquer coisa de tremendo e de muito importante para a minha
existncia. Este acontecimento medonho deu-se porque eu
pensava nele ou porque o pressentia?... No sei. Talvez tambm
tudo o que se
66
passou nos minutos que precederam o que aconteceu tomou na
minha lembrana uma cor sombria.
"Cheguei diante do ptio da minha casa. Passava da meia-noite.
Vrios fiacres eetavam parados em frente  porta, esperando
fregueses eventuais porque havia luz nas janelas (nas do salo
e nas da sala de jantar do nosso apartamento).
"Sem tentar perceber porque estariam iluminadas as janelas,
galguei as escadas, bati  porta com o mesmo sentimento de que
qualquer coisa de horrvel ia acontecer. O nosso criado de
quarto, Egor, homem honesto e dedicadssimo, abriu-me a porta.
O primeiro objecto que me saltou  vista foi, logo na entrada,
o casaco de Troukhat-chevski, pendurado no cabide juntamente
com outros.
"Eu devia ter ficado surpreendido, mas no. Parece que contava
com isso.
"<Est bem>, disse para mim.
"Quando perguntei a Egor quem estava com a senhora ele
respondeu-me que era Troukhatchevski. Perguntei-lhe se havia
mais algum. Ele respondeu-me negativamente.
"Lembro-me agora que a resposta dele tinha uma inteno
particular. Como se ele desejasse ser-me agradvel e
desvanecer em mim qualquer m impresso, a propsito de
qualquer outra pessoa.
"<Ningum mais! Ningum maisb, repetia eu.
"<E os meninos?>
"<Graas a Deus esto bem. Adormeceram h j muito tempo.> Eu
no podia suster a respirao, nem fazer parar o tremor dos
queixos.
"Afinal era o que eu pensava. Antigamente eu pensava numa
desgraa mas na realidade tudo se passava bem. Agora no era
como antigamente. Tudo o que eu imaginara, tudo o que eu
pensara era a realidade. Desta vez era verdade.
"Ia comear a chorar mas, de repente, um demnio soprou-me ao
ouvidos:
<"Chora, arma ao sentimento, eles tero tempo de se separarem
tranquilamente. No ters provas e toda a vida vivers na
dvida e te atormentars.)
"Imediatamente desapareceu o enternecimento por mim prprio e
um estranho sentimento surgiu - talvez voc no acredite - um
sentimento de alegria, ao pensar que as minhas torturas iam
acabar e eu a podia castigar, livrar-me dela e podia
finalmente satisfazer o meu desejo de vingana. Tornei-me um
animal enraivecido, um animal mau e manhoso.
"<No  preciso nada>, disse eu a Egor que me queria
acompanhar ao salo. <Tu tens que ir fazer imediatamente
67
isto. Mete-te num fiacre e vai levantar as minhas bagagens.
Tens aqui a guia. Apressa-te.>
"Ele meteu-se pelo corredor para ir buscar o casaco. Temendo
que os fosse prevenir, acompanhei-o at ao quarto e s o
deixei quando ele j estava pronto para sair.
"No salo que ficava afastado dos quartos continuavam a
ouvir-se vozes e o tilintar dos talheres e dos pratos. Estavam
 mesa e no tinham ouvido a campainha da entrada.
"<Deus queira que eles no saiam", dizia de mim para mim.
"Egor ps o casaco de gola de astrac e partiu. Logo que saiu
fechei a porta  chave e fui tomado de verdadeiro pavor quando
percebi que estava completamente s e que era preciso agir
imediatamente.
"No sabia ainda como tudo iria acabar. Mas sabia que tudo
terminaria porque no havia maneira de ela poder provar a sua
inocncia e eu tinha de a castigar e pr fim s nossas
relaes.
"Noutras ocasies eu dizia:
""Talvez no seja verdade. Pode ser que eu me engane.>
"Neste momento tudo desaparecera. Decidira irrevoga-velmente.
<"s minhas escondidas, numa entrevista durante a noite!...>
Era o esquecimento de tudo. Ou pior ainda. Este despudor, esta
impertinncia do crime eram propositadas para testemunhar a
sua inocncia. Tudo era claro. No podia haver dvidas.
"Eu s tinha medo que eles se escapassem, inventando uma
qualquer artimanha, privando-me de uma prova retumbante e da
possibilidade de os castigar. Para os surpreender mais
depressa, dirigi-me em bicos de ps para o salo onde se
encontravam, no passando pela salinha, mas atravessando o
corredor e o quarto dos pequenos.
"No primeiro quarto dormiam os rapazes. No segundo a criada
mexeu-se e esteve quase a acordar. Nesse momento pensei o que
imaginaria ela quando tivesse conhecimento do que tinha
acontecido e senti uma pena to grande de mim mesmo que no
pude suster as lgrimas. Para no ser sentido plos pequenos
sa a correr para fora do quarto em bicos de ps para o
corredor. Entrei no meu gabinete e desatei a chorar
convulsivamente enterrado no div.
<"Que desgraa! Um homem honesto, filho de gente honradssima,
que toda a vida sonhou com a felicidade de um lar!... Cinco
filhos e ela beija um msico porque ele tem os lbios
vermelhos. No. Ela no  um ser humano.
68
Ela  uma cadela, uma cadela vil... Junto do quarto dos filhos
que ela fingia amar acima de tudo... Escrever o que ela me
escreveu e envolv-lo de seguida nos seus braos.)
"<Talvez tivesse sido sempre assim... Talvez os nossos filhos
sejam filhos dalgum dos meus criados.>
<"Se eu tivesse chegado de manh ela teria vindo ao meu
encontro sorridente, formosa com as seus movimentos ondulantes
e graciosos (eu revia a sua figura atraente e odiosa) e ento
a besta raivosa do cime ficaria para sempre no meu corao a
esfrangalh-lo.>
"<Que vo pensar o Egor e a criada? E a pobrezinha da Lisa?
Ela parece compreender alguma coisa. Que imprudncia! Que
impostora!>
"Quis levantar-me mas foi em vo. O corao batia-me com tal
violncia que me no conseguia ter nas pernas. Sem dvida eu
vou morrer de um ataque. Ela mata-me. Era o que era preciso.
Era muito cmodo. No. No ser assim. Seria cmodo de mais.
Eu no lhe darei essa satisfao. Muito bonito. Eu aqui
sentado sem me poder mexer e eles, comendo, rindo e... Sim.
Embora ela no esteja na juventude, ele julgou-a digna dele.
Apesar de tudo ela ainda no est m e sobretudo no  um
perigo para a sua preciosa sade.
"<Por que a no estrangulei no outro dia?>, pensava eu
recordando a cena em que lhe atirara todos os objectos que
tinha sobre a secretria e a tinha expulsado do meu gabinete.
Lembrava-me perfeitamente do estado em que me encontrava
ento; no somente eu recordava nitidamente tudo, mas sentia
tambm a mesma necessidade de bater e de destruir que me
assaltara naquele momento.
"Recordo-me de que desejava agir e que todas as espcies de
lucubraes fora daquelas que eram necessrias para agir me
saam do crebro.
"Entrei nas disposies de um animal feroz ou, antes, nas de
um homem que est sob a influncia de uma excitao fsica no
momento de um perigo. Age com preciso, sem pressa, mas sem
perder um minuto e tudo com um fim determinado."
XXVII
- A primeira coisa que fiz foi descalar os sapatos. Em pegas
fui at  parede por cima do div onde estavam penduradas as
espingardas e os punhais. Tirei um punhal curvo marchetado,
terrivelmente agudo que nunca tinha servido. Tirei-o da bainha
que caiu para trs do div. Lembro-me que pensei procur-la
mais tarde para que se no perdesse. Depois tirei o sobretudo
que tivera vestido todo
69
esse tempo e, caminhando com passos silenciosos sem as botas,
dirigi-me para o salo. Depois de ter chegado at  porta, sem
nenhum rudo abri-a bruscamente. Lembro-me das suas
expresses. Lembro-me perfeitamente, pela alegria que senti
perante o horror que elas exprimiam. Era precisamente o que eu
pretendia. Eu no posso jamais esquecer o terror desvairado,
pintado nas feies dos dois, durante o primeiro segundo...
quando eles me viram,
"Ele estava - parece-me - sentado  mesa; ao ver-me, ou
melhor, ao sentir-me levantou-se repentinamente e ficou de p,
de costas para o armrio. O seu rosto traduzia verdadeiro
terror. A cara da minha mulher tinha a mesma expresso. Se a
sua fisionomia s tivesse traduzido terror talvez o que
aconteceu no tivesse acontecido. Mas ela exprimia - pelo
menos foi essa a minha impresso  primeira vista - despeito,
desagrado por ter sido interrompida nos seus amores, na sua
felicidade com ele. Parecia querer dizer que no a
importunassem, que no precisava de nada, porque s precisava,
naquele momento, de ser feliz. Mas tudo isto se passou num
relance. O terror da expresso de Troukhatchevski foi
substitudo por um ar interrogador.
"<Devemos mentir ou no? Se devemos mentir tem que ser j,
seno outra coisa vai acontecer.)
"Mas o qu? Ele olhou para ela como a interrog-la. Sobre a
face de minha mulher desapareceram os sinais de desapontamento
e tdio para darem lugar  inquietao pelo que podia ir
acontecer a Troukhatchevski.
"Fiquei um instante no limiar da porta, com o punhal atrs das
costas. Neste preciso momento ele sorriu e comeou num ar
absolutamente indiferente at ao absurdo:
"<Fazamos um pouco de msica...>
"Por sua vez ela disse:
"<Eu no te esperava!)
"Usou o mesmo tom que ele.
"Nem um nem outro ousaram acabar a frase. A raiva que semanas
antes me acometera apoderou-se de mim. Senti novamente o
desejo de destruir tudo, uma necessidade de violncia, de
exaltao. Abandonava-me ao meu furor. Os dois deixaram a sua
frase inacabada. Aquela coisa que ele, inconscientemente,
temia e que quebrava tudo o que eles diziam comeou. Atirei-me
a ela, escondendo sempre o punhal que trazia comigo para que
ele no me impedisse de a ferir de lado, um pouco abaixo do
seio. Desde o princpio que eu escolhera aquele lugar. No
momento em que me atirei a ela ele viu o punhal (eu no pensei
que ele fosse capaz de proceder assim). Agarrou--me pelo brao
e gritou:
70
<"Acalme-se! Que  que voc vai fazer? Socorro!>
"Desprendi o brao brutalmente e sem dizer uma palavra
atirei-me a ele.  seu olhar encontrou-se com o meu,
tornou-se, como o meu, branco como a cal, os prprios lbios
embranqueceram. Os olhos adquiriram um brilho estranho e
depois (eu no esperava este desenlace) ele esgueirou-se por
debaixo do piano e desapareceu pela porta. Corri atrs dele
mas, de repente, senti um peso no meu brao. Era ela.
Atirei-me. Ela fez-se mais pesada, reteve-me. Este obstculo
imprevisto, este peso e o seu contacto odioso excitaram-me
mais ainda. Eu sentia que estava completa-mente descontrolado,
que devia ter um aspecto medonho e sentia-me alegre. Levantei
o brao esquerdo com todas as minhas foras e o cotovelo
bateu-lhe em cheio na cara. Ela soltou um grito e largou-me o
brao. Tentei ainda ir atrs dele mas pensei que seria
ridculo correr em meias atrs do amante da minha mulher; eu
no queria ser ridculo, queria ser terrvel. Apesar do meu
frenesim eu tinha a conscincia da impresso que causava aos
outros e era essa impresso que me guiava. Voltei-me para ela.
Tinha cado sobre uma chaise-longue e fitava-me, protegendo
com as mos os olhos feridos. A sua expresso era de dio e
temor; o dio do inimigo, o do rato quando se abre a ratoeira
onde se deixou cair. Pelo menos era o que eu via, horror e
medo de mim. Era o horror e o medo que lhe deviam ter feito
nascer o amor por outro homem. Eu talvez tivesse conseguido
dominar-me e no teria acontecido o que aconteceu se ela no
tivesse falado. Mas ela comeou a falar e agarrou-me a mo com
que eu segurava o punhal.
"<Acalma-te! Que fazes tu?... O que aconteceu? No h nada...
nada... nada... Juro-te!>
"Eu talvez tivesse detido a minha fria, mas as ltimas
palavras de que eu tirei a concluso ao contrrio, isto , que
tudo estava consumado, exigiam uma resposta. E a resposta
devia ser conforme ao estado em que me encontrava e que ia num
crescendo e devia continuar a ampliar--se. A clera tambm tem
os seus direitos.
<"No mintas, prostituta!>, berrava eu, e com a mo esquerda
agarrei-lhe o brao.
"Mas ela conseguiu libertar-se. Ento sem largar o punhal,
agarrei-a pela garganta com a mo esquerda, deitei-a para trs
e tentei estrangul-la. Como o seu pescoo era duro!
Ela agarrou-se com as duas mos s minhas, para tentar
tir-las da garganta... e ento como se eu no esperasse seno
isto, feri-a duas vezes, com muita fora, com o punhal no lado
esquerdo, abaixo das costelas.
"Quando se afirma que nos no lembramos de nada,
71
Ir
l i
num acesso de furor,  uma tolice, e uma mentira. Eu lembro-me
de tudo e nem um momento deixei de me lembrar. Quanto mais
violenta era a minha clera mais intenso era o fogo da
conscincia,  luz da qual eu no podia deixar de ver tudo o
que fazia. Em todos os momentos sabia o que estava a fazer.
No poderei dizer que eu sabia de antemo o que ia fazer mas,
no momento em que agia, mesmo um pouco antes, sabia bem o que
fazia para que fosse possvel arrepender-me, e de qualquer
maneira, me pudesse deter. Sabia que a feria sob as costelas e
que o punhal entrava. Nesse momento, sabia que cometia
qualquer coisa de muito horrvel, que nunca tinha feito nada
de semelhante e que seriam terrveis as consequncias. Mas
esta conscincia desapareceu como um relmpago e imediatamente
o acto se seguiu. Tambm tenho a conscincia ntida do acto.
Senti (lembro-me perfeitamente) a resistncia do espartilho e
depois enterrar-se o punhal em qualquer coisa mole. Ela
agarrara a lmina com as duas mos e feriu-se mas no a pde
segurar.
"Muito tempo depois, na priso, quando uma revoluo moral se
operou em mim, eu meditei nesse minuto, reconstituindo o mais
que podia. Lembro-me que num abrir e fechar de olhos durante o
segundo que precedeu o meu acto, eu tive o sentimento
terrificante de matar, de ter morto uma mulher, uma criatura
sem defesa, a minha prpria mulher. Lembro-me do horror desse
instante e conclu que depois de ter enterrado o punhal eu o
tirei (tenho disso uma vaga ideia) com o desejo de reparar o
mal, de impedir o que j estava feito. Estive um momento
imvel, esperando o que ia acontecer, se a poderiam salvar.
Ela levantou-se bruscamente e gritou:
"<Ama! Ele matou-me!>
"A criada dos pequenos que tinha ouvido barulho estava no
limiar da porta. Eu fiquei pregado ao cho,  espera, sem
poder render-me  evidncia. Neste momento mesmo, o sangue
jorrou atravs do espartilho. S ento compreendi que no
poderiam reparar o que tinha feito e verifiquei que era
intil: era precisamente o que eu queria e desejara realizar
completamente. Eu esperava que ela casse. A criada correu
para ela gritando:
<"Meu Deus!>
"Ento arremessei o punhal para longe e deixei o quarto.
"< necessrio que eu no me perturbe,  preciso que saiba o
que fao", dizia eu, sem olhar, nem para a minha mulher nem
para a criada.
"A criada gritava e chamava a outra criada. Eu passei no
corredor, mandei a criada para junto de minha mulher e fui
para os meus aposentos.
72
"<Que fazer agora?>, perguntei a rnim mesmo e compreendi o que
tinha de fazer. Entrando no meu gabinete dirigi-me
imediatamente para a parede onde estavam as armas. Tirei um
revlver, examinei-o (estava carregado) e coloquei-o em cima
da mesa. Em seguida procurei a bainha do punhal e sentei-me
sobre o div.
"Fiquei durante muito tempo assim. Eu no pensava em nada; no
me lembrava de nada. Pareceu-me ouvir que transportavam
qualquer coisa. Chegou algum, depois chegou ainda outra
pessoa. Em seguida senti e vi Egor trazer para o meu gabinete
a bagagem que tinha ficado na gare, como se algum tivesse
necessidade de alguma coisa.
"<Ouviste dizer o que aconteceu? Diz ao porteiro que chame a
polcia. >
"Ele calou-se e pouco depois saiu. Levantei-me. Fechei a porta
 chave e depois de ter ido buscar cigarros e fsforos pus-me
a fumar.
"Ainda no tinha acabado de fumar um cigarro quando o sono me
invadiu e me venceu. Dormi, provavelmente, perto de duas
horas. Lembro-me que sonhei que ramos bons amigos.
Tnhamo-nos zangado mas tnhamos feito as pazes; havia
qualquer coisa que nos aborrecia mas ramos bons amigos.
Acordei ouvindo bater  porta.
"< a polcia!", pensei eu, acordando. <Parece-me que a matei.
Ou talvez seja ela e no se tenha passado nada.>
"Tornaram a bater  porta. Eu no respondi, esforando-me por
resolver a questo. Aconteceu ou no aconteceu? Sim,
aconteceu. Lembrava-me da resistncia do espartilho, o punhal
que se enterrava e tive um estremecimento de horror, que me
gelou. Sim, aconteceu. Agora  a minha vez. Mas, dizendo isto,
eu tinha a certeza que no me mataria. Contudo levantei-me e
peguei de novo no revlver. Facto estranho. Lembro-me de que
antes disto tinha estado muitas vezes  beira de me suicidar.
No dia anterior, no caminho-de-ferro, isso ter-me-ia parecido
fcil, precisamente porque supunha dar-lhe um desgosto. Neste
momento eu no podia pensar assim.
"<Por que hei-de fazer isto?>, perguntava a mim prprio sem
encontrar resposta.
"Bateram de novo  porta. < preciso saber quem . Eu tenho
tempo.> Pus de nova o revlver sobre a mesa e cobri-o com um
jornal. Fui  porta e abri-a. Era a irm da minha mulher, uma
viva, ao mesmo tempo boa e estpida.
"<Vassia! Que aconteceu?>, disse-me ela entre lgrimas sempre
prontas a correr.
<"O que  que tu queres?", respondi bruscamente.
73
Reconhecia que era perfeitamente intil e injusto ser brutal
com ela mas no podia falar de cutro modo.
<"Vassia! Ela vai morrer. Disse-o Ivan Fdorovitch.> Era o
mdico, o seu mdico, o seu conselheiro.
"<Ele est c?>, perguntei eu. De novo me veio uma grande m
vontade contra ela. <E depois?>
"<Vassia, vai v-la. Ah!  horrvel!>
"<Ir v-la?>, perguntei a mim prprio. Era necessrio ir
v-la. Com certeza era costume. Quando um marido, como eu,
mata a mulher  necessrio, com certeza, ir v-la.
"<Se  costume, irei v-la. H sempre tempo>, pensei eu a
propsito da minha inteno de me suicidar e fui para os
aposentos de minha mulher. <Certamente vai haver frases e
gestos mas eu no me deixarei comover. >
"<Espera um pouco>, disse eu para a minha cunhada. "<
estpido ir em pegas. Deixa-me, ao menos, calar as
pantufas.">
XX-VHI
- Coisa extraordinria! Quando sa do meu gabinete e
atravessei os compartimentos que me eram familiares tive ainda
a esperana de que nada se tivesse passado. Mas o cheiro dos
desinfectantes que so prescritos plos mdicos, o fenol, o
iodofrmio, abateram-me. Sim. Era verdade. Quando passei no
corredor, em frente do quarto dos filhos, vi Lisa. Fixou-me
com os olhos apavorados. Tive mesmo a impresso de que todos
os filhos olhavam para mim. Cheguei  porta do quarto; a
criada abriu-a e saiu.
"A primeira coisa que me saltou aos olhos foi o vestido de
minha mulher, um vestido de seda cinzento, em cima de uma
cadeira, e todo manchado de sangue. Estava deitada na nossa
cama no meu lugar (era o mais acessvel), estendida, mas com
os joelhos levantados. Tinha o corpete desabotoado e sobre a
ferida tinham-lhe colocado qualquer coisa.
"O quarto estava impregnado do cheiro do clorofrmio. Mas o
que me horrorizou, antes de mais nada, foi a cara inchada e
coberta de ndoas negras num dos olhos e numa parte do nariz.
Era o efeito da enorme pancada que eu lhe dera quando ela me
agarrou.
"Tinha perdido toda a sua beleza e tinha mesmo um ar
repugnante. Parei  entrada.
"<Aproxima-te, vai at junto dela>, disse-me a minha cunhada.
"<Querer ela confessar-me toda a verdade? Devo perdoar-lhe?
Sim. Ela vai morrer, eu devo perdoar>, pensei e esforando-me
por ter um ar magnnimo. Cheguei-me um
74
pouco para mais perto dela. Ergueu para mim, com grande custo,
os olhos fatigados (tinha um olho inchadssimo) e com grande
dificuldade e entrecortadamente articulou:
"<Conseguiste o teu fim, mataste-me...> E na sua cara, apesar
de todo o sofrimento fsico e at da aproximao da morte eu
vi o antigo dio frio e animal que me era familiar. <Mas... os
filhos... eu no tos deixarei... Ser ela (a sua irm) que
tomar conta deles.>
"Mas do que era mais importante para mim, da sua falta, da sua
traio, ela entendia que no valia a pena falar.
"<Rev a tua obra>, disse ela olhando para a porta e desatando
a soluar. A minha cunhada estava  entrada da porta com todos
os filhos. <Eis o que tu fizeste.>
"Olhei para os filhos, depois para a sua cara coberta de
equimoses, e pela primeira vez esqueci a minha personalidade,
os meus direitos, o meu orgulho, vi nela um ser humano. Tudo o
que me ofendia, todo o meu cime era nada perante a aco que
tinha cometido. E tive a tentao de encostar a cabea  sua
mo e pedir-lhe que me perdoasse. Mas no tive coragem. Ela
ficou calada, os olhos fechados, visivelmente j fora de si.
Depois a cara comple-tamente deformada contraiu-se e cobriu-se
de rugas. Repeliu-me.
"<Porqu tudo isto? Porqu?>
"<Perdoa-me>, disse-lhe eu.
"<Perdoar? Tudo isto  absurdo!... O que eu queria era viver>,
gritou ela. Soergueu-se, os olhos tinham um brilho febril e
fixaram-me: <Conseguiste os teus fins!... Odeio-te. Ai!...
Ai!...> Subitamente, em delrio, sob uma impresso de terror.
<Mata-me! Mata-me! Eu no tenho medo... Somente... peo-te,
mata-nos a todos, e a ele tambm. Ele foi-se embora... ele
foi-se embora!...>
"Nunca mais deixou de delirar. J no conhecia ningum. Morreu
nesse mesmo dia, pelo meio-dia.
"s oito horas tinham-me levado para o comissariado e da para
a priso. Depois de onze meses de priso em que esperei pela
organizao do processo, reflecti durante esse tempo sobre a
minha maneira de ser e proceder, sobre todo o meu passado e
compreendi ento tudo. Logo dois dias depois comecei a
compreender. E dois dias depois entrava na priso..."
Ele quis acrescentar mais alguma coisa mas no pde reter por
mais tempo os soluos. Parou a narrao. Encheu-se de coragem
e continuou:
- Eu nada tinha compreendido at que a vi no caixo. - Voltou
a soluar mas continuou precipitadamente: - Foi s quando vi a
sua cara de morta, plida como cera, que compreendi tudo o que
tinha feito. Compreendi que a
75
tinha assassinado e que dependera de mim a sua vida, o que a
animava, o seu calor, a sua felicidade; e, que por mim, ela se
tornara inerte, fria, cor de cera; e eu no podia reparar o
mal que fizera em nenhum tempo, em nenhum lugar, de nenhuma
maneira. Quem no passou por isto no pode compreender. Que
horror!... Que horror!... - gritou ele por diversas vezes.
Depois, veio-lhe de novo a calma.
Ficmos silenciosos por muito tempo. Ele chorava
desabaladamente, sem dizer uma palavra na minha frente,
sacudido a todos os instantes, plos solavancos do comboio.
- Perdoe-me!...
Voltou-se. Estendeu-se ao comprido no banco e tapou--se com a
manta de viagem. Na estao em que eu me devia apear (eram
perto de oito horas da manh) aproximei-me dele para me
despedir. No sei se dormia se fazia que dormia. No tinha
sequer um leve estremecimento. Toquei-lhe com a mo e
afastando a manta que o cobria vi que ele estava acordado.
- Adeus - disse-lhe estendendo-lhe a mo. Estendeu-me a sua
com um sorriso to lamentavelmente triste que tive vontade de
chorar.
- Perdoe-me - disse-me ele, repetindo as mesmas palavras que
dissera quando conclura a sua narrativa.
76
POSFCIO
Recebi e continuo a receber muitas cartas de desconhecidos,
pedindo-me que explique em termos simples e claros o que penso
acerca da narrativa que escrevi e intitulei Sonata a Kreutzer.
Vou tentar exprimir brevemente, na medida do possvel, o
contedo do que eu quis dizer nesta narrativa e as concluses
que segundo o meu parecer se podem daqui tirar.
Primeiramente, quis dizer que na nossa sociedade se formou a
convico slida, comum a todas as classes e aprovada por uma
falsa cincia de que as relaes sexuais so indispensveis 
sade; e que portanto, quando o casamento se no torna
possvel, o comrcio sexual, no obrigando o homem a outra
preocupao que no seja a de uma determinada despesa,  uma
actividade perfeitamente natural e por consequncia deve ser
encorajada.
Esta convico tornou-se to geral e to slida que os pais, a
conselho dos mdicos, asseguram a depravao dos filhos; os
governos cujo nico fim  o cuidado do bem-estar moral dos
seus concidados fazem do desregramento fsico uma
instituio, isto , regularizam a existncia de uma classe de
mulheres destinadas a morrer no s fsica como moralmente
para satisfao das pretensas necessidades dos homens, de tal
modo que os celibatrios entregam-se ao deboche com a
conscincia perfeitamente tranquila.
Eu quis, portanto, provar que esta tese est errada porque 
impossvel que para a sade de uns seja necessrio fazer
morrer os corpos e as almas dos outros, da mesma maneira que
no  possvel que para a sade de uns seja necessrio beber o
sangue dos outros.
A concluso que tiramos  de que no se deve ceder a esta
aberrao e falsidade.
Para no ceder  necessrio primeiro no acreditar nas
doutrinas imorais, quer elas sejam pseudocincias em que se
arvoram e, segundo, compreender que a prtica das relaes
sexuais desta espcie nas quais os homens ou se libertam das
consequncias possveis - os filhos -, ou
79
ento fazem recair todo o peso sobre a mulher, ou obstam 
possibilidade concepcional; as relaes deste gnero so na
verdade uma transgresso da mais simples exigncia moral, uma
infmia e os homens solteiros que no querem ter uma vida
infame no devem proceder desta maneira.
Para se poderem abster  preciso alm disso levar uma vida
conforme  natureza; no beber, no se empanturrar de comida,
no comer carne, no fugir ao trabalho (no ginstica mas um
trabalho extenuante, que no tenha nada de divertimento),
afastar do pensamento a possibilidade de relaes fsicas com
mulheres de outros, da mesma maneira que qualquer homem afasta
a possibilidade de ligaes desse gnero entre ele e a me, os
irmos, os pais e as mulheres dos amigos.
A continncia  possvel e muito menos perigosa e prejudicial
 sade que a incontinncia. Todos os homens encontraro  sua
volta centenas de provas.
Este  o primeiro ponto.
Segundo ponto: na nossa sociedade considera-se o comrcio
amoroso no s como uma condio essencial  sade e um prazer
mas uma felicidade potica e sublime; a infidelidade conjugal
em todas as classes (sobretudo entre os camponeses - graas ao
servio militar)  um fenmeno corrente.
Eu considero isto mal. A concluso que daqui resulta  de que
se no deve fazer isto.
Para no fazer isto  necessrio considerar o amor carnal de
uma outra maneira.  preciso que os homens e as mulheres sejam
educados nas famlias e na opinio pblica de tal maneira que
antes e depois do casamento eles considerem o desejo e o amor
fsico que esto entre si ligados, no como um estado potico
e superior, como se considera presentemente, mas como um
estado animal degradante para o ser humano e que a violao da
promessa de fidelidade, dada no momento do casamento, seja
castigada pela opinio pblica pelo menos, da mesma maneira
que o no pagamento de uma dvida, ou fraude comercial, e no
seja celebrada, como se faz agora, nos romances, na poesia,
nas canes, nas peras, etc.
Este  o segundo ponto.
Terceiro ponto: na nossa sociedade, sempre, como consequncia
do significado errado atribudo ao amor carnal, a procriao
perdeu o seu verdadeiro significado: em vez de ser o fim e a
qualificao das ligaes conjugais ela no  seno um
obstculo ao prolongamento agradvel das relaes amorosas.
Consequentemente, tanto fora como dentro do casamento, sob o
conselho dos servidores da cincia mdica,
80
por um lado, o emprego de processos para privarem a mulher da
possibilidade de conceber comeou a espalhar--se, por outro
lado, uma prtica que no existia outrora nas famlias
patriarcais camponesas comea a entrar em uso: a continuao
das relaes conjugais durante a gravidez e o aleitamento.
Eu considero isso um mal.  um mal o emprego dos processos
anticoncepcionais; primeiro porque liberta as pessoas dos
cuidados e dos sofrimentos que do os filhos e eram um resgate
do amor carnal; segundo, porque  qualquer coisa muito prxima
do acto que mais repugna  conscincia humana, o assassnio. A
incontinncia durante a gravidez e o aleitamento  reprovvel
porque atinge a mulher nas suas foras fsicas e sobretudo
morais.
A concluso que daqui resulta  de que se no deve fazer isto.
E para no o fazer  necessrio compreender que a continncia,
condio essencial da dignidade humana fora do casamento, 
ainda mais necessria no matrimnio.
Este  o terceiro ponto.
Quarto ponto: na nossa sociedade, em que os filhos so
considerados, tanto como um obstculo  felicidade, tanto como
um perigo desastroso ou como uma felicidade quando se lhes
determina o nmero de antemo, os filhos so criados no no
sentido das tarefas da vida humana que os espera como seres
inteligentes e amveis mas somente no sentido dos prazeres que
eles podem proporcionar aos pais.
Por consequncia, os filhos dos homens so criados como
animaizinhos e o principal cuidado dos pais no  prepar-los
para as actividades dignas dos homens mas (e nisto os pais so
sustentados pela falsa cincia a que se chama medicina) de os
fartar o mais possvel, de fazer deles homens de boa estatura,
musculosos, brancos, gordos e bonitos (se no se faz o mesmo
nas classes inferiores  unicamente porque a necessidade se
ope, mas o critrio  o mesmo).  entre as crianas molengas
como entre os animais superalimentados, manifesta-se cedo e
anormalmente uma sensualidade invencvel que lhes causa
tormentos horrveis na adolescncia. Os enfeites, as leituras,
os espectculos, a msica, as danas, as guloseimas, todo o
cenrio da vida, desde os bonecos das caixas de bombons at
aos romances, novelas e poemas, incitam e exaltam ainda mais a
sensualidade; em consequncia disto surgem as mais tremendas
depravaes e as doenas sexuais tornam-se o elemento habitual
no crescimento das crianas dos dois sexos e permanecem,
muitas vezes, at na idade adulta.
81
Eu considero isto um mal. A concluso que se pode tirar  que
 necessrio deixar de educar os filhos dos homens como os
filhos dos animais e para educar os filhos dos homens devem
fixar-se outras regras que no sejam as de criar corpos
bonitos e amimados.
 o quarto ponto.
Quinto ponto: na nossa sociedade em que a paixo entre um
rapaz e uma rapariga, cuja base  o amor carnal,  considerada
no plano de um resultado nobre e potico das aspiraes dos
seres (toda a arte e a poesia da nossa sociedade so disso
testemunhos) os jovens consagram-lhe grande parte da vida: os
homens a procurar o objecto mais digno do seu amor e tomar
posse dele ou sob a forma de uma ligao ou de um casamento;
as mulheres e as raparigas a seduzir e a atrair os homens para
uma ligao ou para o casamento.
Deste modo, as melhores foras dos indivduos so empregadas
numa tarefa no somente improdutiva, mas aborrecida.
Da provm a maior parte do luxo insensato da nossa vida
quotidiana, da a ociosidade dos homens, o impudor das
mulheres que no hesitam em expor, com a ajuda das modas
provenientes de mulheres notoriamente depravadas, as partes do
corpo mais provocantes para os sentidos.
Ora eu considero isto um mal.
E mal porque a procura da unio, no casamento ou fora do
casamento, com o objecto amado, qualquer que seja a maneira
como o poetizem  um fim indigno do homem, da mesma maneira
que  indigno do homem andar  procura (embora seja para
muitos o maior bem) de uma alimentao saborosa e abundante.
A concluso que devemos tirar  de que o amor carnal nada tem
de particularmente nobre e que a finalidade superior do homem,
quer seja o servio da humanidade, da ptria, da cincia, da
arte (no falando no servio de Deus) no se atinge atravs da
unio com o objecto amado, no casamento ou fora dele. Pelo
contrrio, o amor, a unio com o objecto amado -  debalde que
se procura demonstrar o contrrio, seja em prosa, seja em
verso - no facilita o alcance desse fim, antes o dificulta.
 este o quinto ponto.
Resumindo era isto o que eu queria dizer e julgara mesmo t-lo
dito na minha narrativa. Supunha que o mal que a minha tese
denuncia faria reflectir no meio de remediar mal to profundo.
 impossvel rebater os argumentos que apresentei, primeiro
porque esto em acordo perfeito com o progresso da humanidade
que tende para a castidade, com a
82
conscincia moral da sociedade, com a nossa conscincia
pessoal que condenou sempre a incontinncia e apreciou a
pureza; segundo porque os argumentos apresentados so a
consequncia inevitvel dos ensinamentos do Evangelho que
praticamos, ou pelo menos, reconhecemos, por vezes
inconscientemente, como fundamento da nossa concepo moral.
Ningum, certamente, contesta os argumentos que condenam o
desregramento, antes e depois do casamento, nem os de que se
no deve impedir a concepo; nem que os filhos no devem ser
motivo de divertimento, nem que se deve colocar acima de tudo
a unio carnal; ningum negar que a castidade  prefervel 
libertinagem.
Argumenta-se: se o celibato  um estado mais perfeito do que o
casamento, evidentemente devemos praticar o que  melhor, mas
nesse caso desaparecer o gnero humano. Ora, o ideal do
gnero humano no deve ser o seu aniquilamento.
O aniquilamento do gnero humano no  uma concepo nova. 
um dogma para os crentes.  uma deduo inevitvel das
observaes para os cientistas. H nesta objeco um grande
mal-entendido (que no  de hoje e est muito espalhado).
Se os homens atingem o ideal da perfeita castidade
aniquilam-se, logo o ideal  falso. Os que afirmam isto
misturam, consciente ou inconscientemente, duas coisas de
natureza diferente, a lei (a prescrio) e o ideal.
A castidade no  uma lei,  ideal, ou melhor, uma das
condies do ideal. E o ideal s  ideal quando a sua
realizao no  possvel, seno como ideia e pensamento. O
ideal s deve ser possvel de atingir no infinito e por
consequncia a possibilidade de aproximao  infinita. Se o
ideal se atinge e podemos representar a sua realizao deixa
de ser ideal. Tal  o ideal de Cristo.
O advento do reino de Deus sobre a Terra, ideal j anunciado
plos profetas e em que os homens instrudos por Deus
transformariam o ferro das espadas em charruas, as lanas em
foices, o leo se deitaria ao lado do cordeiro e os homens
estariam unidos pelo Amor.
Todo o sentido da vida humana  um movimento que tende para
este ideal; no seu conjunto e aspirao para o ideal cristo,
e em particular a castidade como uma das condies deste
ideal, no exclui a possibilidade da vida mas pelo contrrio a
ausncia deste ideal cristo impede toda a possibilidade da
vida.
A hiptese de que o gnero humano acabaria se os homens
tendessem para uma castidade perfeita assemelha-se  de que o
gnero humano poderia acabar se os
83
homens em vez de lutarem pela existncia tendessem para
realizar perfeitamente a caridade amando o prximo como a si
prprio, amigos e inimigos, todos os seres vivos.
Estas afirmaes derivam da incompreenso da diferena dos
dois aspectos da conduta moral.
Assim como se pode indicar de duas maneiras o caminho ao
viajante que o procura, h duas regras de conduta moral para o
homem que procura a verdade. Uma consiste em mostrar ao homem
objectos que tem de encontrar e ele orienta-se segundo esses
objectos. A outra consiste em dar ao homem somente uma
direco indicada pela bssola que o homem traz consigo e em
que  marcada a direco imutvel e por consequncia ele
poder apreciar os seus prprios desvios.
A primeira regra de conduta moral baseia-se em regras
exteriores - determinam-se ao homem actos determinados que ele
pode ou no realizar.
- Respeita o sbado - emprega a circunciso, no bebas bebidas
alcolicas, no mates seres vivos, d o dinheiro aos pobres,
no cometas adultrio, faz as tuas ablues, reza cinco vezes
por dia, baptiza-te, comunga, etc. Eis os pontos das doutrinas
exteriores das religies, bramnica, budista, muulmana,
hebraica, eclesistica, abusivamente chamada crist.
A outra regra mostra ao homem uma perfeio impossvel de
atingir,  qual ele aspira no fundo de si prprio; indica-se
ao homem um ideal e ele pode sempre medir a distncia que o
separa.
- Ama a Deus com todo o corao, com toda a tua alma, com toda
a tua razo, e ao teu prximo como a ti mesmo. Sede perfeitos
como vosso Pai Celeste.
 a doutrina de Cristo.
Pode-se verificar a realizao das doutrinas exteriores da
religio pela concordncia dos actos com os pontos destas
doutrinas, esta concordncia  possvel.
Pode-se verificar a realizao da doutrina de Cristo pela
conscincia do grau de afastamento do ideal de perfeio. (O
grau de aproximao no  visvel; no se apreende seno a
distncia que nos separa da perfeio.)
O homem, praticando a lei exterior,  um homem de p  luz de
uma lanterna aparafusada num poste. Se ele se mantm na luz
desta lanterna v claro, e no tem necessidade de ir mais
longe. O homem que pratica a doutrina de Cristo assemelha-se a
um homem que traz uma lanterna diante dele ao fim de uma vara
mais ou menos comprida; a luz est sempre diante dele,
incita-o continuamente a continuar o seu caminho e revela-lhe
a todos os momentos um espao novo que ela ilumina.
84
O fariseu d graas a Deus porque cumpriu todos os seus
deveres.
O rapaz rico tambm cumpriu todos os deveres desde a infncia
e no v o que pode faltar-lhe. Eles no podem pensar de outra
maneira e no h mais nada a que possam aspirar. Pagam o
dzimo, observam o sbado, respeitam os pais, no cometem
adultrio, nem roubo, nem assassnio. Que mais  preciso?
Mas para o que pratica a doutrina crist, o acesso a cada grau
da perfeio faz nascer a necessidade de subir ao grau
seguinte de onde se descobre um outro, ainda mais elevado.
O que pratica a lei de Cristo est perpetuamente na situao
do publicano. Ele sente-se sempre imperfeito; no v o caminho
percorrido, mas v sempre o caminho que ainda lhe  necessrio
percorrer.
E aqui que se encontra a diferena entre a doutrina de Cristo
e todas as outras doutrinas religiosas; esta diferena reside
no nas exigncias mas na maneira de dirigir os homens. Cristo
no deu nenhuma regra de vida; ele nem mesmo instituiu o
matrimnio - mas as pessoas que no compreendem a
singularidade da doutrina de Cristo, habituadas s doutrinas
exteriores e desejosas de se sentirem justas da mesma maneira
que o fariseu se sente justo - contrariamente a todo o
esprito da doutrina de Cristo -, tomaram os seus ensinamentos
 letra e fizeram um conjunto de regras exteriores, chamado
doutrina crist da Igreja e que substitui a verdadeira
doutrina de ideal de Cristo.
Este ensino da Igreja que se baptiza crist instituiu no lugar
do ensino do ideal em tudo o que concerne s regras exteriores
contrrias ao esprito da doutrina - isto no que diz respeito
ao poder da justia, do exrcito, da Igreja, do culto e tambm
no que diz respeito ao casamento; se bem que Cristo nunca
tenha institudo o matrimnio, mas, se se procuram as regras
exteriores, tenha antes negado (deixa a tua mulher e
segue-me), o ensino da Igreja que se baptiza crist, instituiu
o casamento como base da vida crist - dizendo de outro modo,
fixou as condies exteriores, graas s quais o amor carnal
pode parecer ao cristo perfeitamente inocente e legtimo. Mas
como na verdade a doutrina crist no tem nenhuma base para a
instituio do casamento, resulta que as pessoas do mundo
deixaram uma margem sem abordar  outra: eles no crem no
fundo nas disposies da Igreja que dizem respeito ao
casamento, porque sentem que esta instituio no tem
fundamento na doutrina crist e ao mesmo tempo perdem de vista
o ideal de Cristo, escondido pelo ensino
85
da Igreja, a aspirao para uma castidade absoluta, e ficam
quanto ao casamento sem nenhuma direco. Da vem este
fenmeno que a princpio pareceu estranho: entre os judeus, os
maometanos, os lamastas e outros que professam doutrinas
religiosas de um nvel muito mais baixo que o cristianismo,
mas que tm regras exteriores do casamento precisas, o
princpio filial e a fidelidade conjugal so incomparavelmente
mais firmes que entre os nossos pretensos cristos.
Eles praticam uma concubinagem, uma poligamia regulamentada,
fechada dentro de certos limites. Enquanto entre ns, a
desvergonha absoluta, a concubinagem, a poligamia e a
poliandria, escapando a todas as regras, revestem o aspecto de
uma monogamia imaginria.
Unicamente porque, para uma certa classe o clero celebra, por
dinheiro, uma determinada cerimnia chamada matrimnio
cristo. As pessoas do mundo ento, inocente ou
hipocritamente, imaginam que vivem na monogamia.
No houve nunca nem pode haver matrimnio cristo como no h
nem nunca poderia haver culto cristo, nem professores ou
padres cristos, nem propriedade crist, nem exrcito, nem
justia ou estados cristos. Isto foi sempre compreendido
plos verdadeiros cristos dos primeiros sculos e dos sculos
seguintes.
O ideal cristo  o amor de Deus e do prximo,  a renncia a
si prprio para servir Deus e o prximo; o amor carnal, o
matrimnio, no  servio seno de si prprio e assim ele  em
todos os casos um obstculo ao servio de Deus e os homens,
por consequncia, sob o ponto de vista cristo esto em
pecado. O facto de se contrair matrimnio no  prestar
servio a Deus nem mesmo no caso em que os contratantes tm
como fim a propagao da espcie. Em vez dessa gente contrair
matrimnio a fim de procriarem vidas infantis seria muito mais
simples sustentar e salvar milhares de crianas que morrem 
nossa volta  mngua de alimentos - j no digo de alimento
espiritual, mas material.
Um cristo no deveria contrair matrimnio sem a conscincia
de pecado seno no caso em que ele visse e soubesse que a vida
de todas as crianas que existem est assegurada.
Pode-se no aceitar a doutrina de Cristo, doutrina que
impregna toda a nossa vida e sobre a qual assenta toda a
moral; mas se se aceita no se pode negar que ela nos indica
um ideal de perfeita castidade.
Diz-se claramente no Evangelho e sem nenhuma possibilidade de
outra interpretao, primeiramente, que um homem casado no
pode repudiar a sua mulher para
86
tomar outra mas deve viver com aquela  qual se uniu uma vez -
segundo, que  pecado geral, e ento tanto para o homem casado
como para o que o no , considerar a mulher como um objecto
de prazer; terceiro, que um homem no casado, melhor  no
casar, quer dizer, deve guardar castidade.
Para um grande nmero estas ideias parecem estranhas e
contraditrias. Elas so realmente contraditrias mas no
entre si; elas contradizem toda a nossa vida, de tal modo que
se levanta involuntariamente uma dvida: quem tem razo? Estas
ideias ou a vida de milhes de seres, compreendendo a minha?
Eu prprio tenho experimentado este sentimento no mais alto
ponto quando cheguei s convices a que cheguei e exponho
nesta narrativa - nunca pensei que o desenvolvimento dos meus
pensamentos me levasse at aqui. Tive medo perante as minhas
concluses e tentei no lhes juntar f, mas era impossvel.
Estas concluses contradizem toda a ordem da nossa vida,
contradizem o que pensei e expus outrora, mas devo aceit-las.
No so seno consideraes gerais, so talvez justas, mas
reportam-se  doutrina de Cristo e no obrigam seno aqueles
que a professam; a vida  a vida e no se pode, depois de se
ter mostrado o ideal inacessvel de Cristo, abandonar os povos
no seio de um dos problemas mais intensos, os mais gerais e os
mais geradores de catstrofes, s com este ideal, sem nenhuma
espcie de direco.
Um rapaz apaixonado ser, a princpio, guiado por este ideal,
mas no perseverar; desligar-se- dele, e sem conhecer, nem
reconhecer outra regra, cair no deboche.
Assim se raciocina ordinariamente:
"O ideal de Cristo  inacessvel, portanto, no pode
seguir-nos de guia na vida; pode-se falar dele e sonh-lo mas
no aplic-lo  vida, portanto,  preciso abandon-lo. O que
nos  preciso no  um ideal,  uma regra, uma conduta
correspondente s nossas foras, ao nvel mdio das foras
morais da nossa sociedade: o matrimnio honesto da Igreja, ou
mesmo o casamento no completamente honesto, no qual um dos
contratantes, entre ns o homem, se uniu j a muitas mulheres,
ou mesmo o casamento com possibilidade de divrcio, ou mesmo o
casamento civil, ou mesmo (se vamos por este caminho) o
matrimnio japons a prazo... e porque no ento as casas de
tolerncia?.
Diz-se que vale mais do que a aliciao na rua.  justamente
essa a desgraa: quando se pode baixar um ideal ao nvel da
sua prpria fraqueza, no se pode achar o limite onde devemos
parar."
Este raciocnio  falso desde o princpio; antes de mais
87
nada  falso dizer que um ideal de perfeio absoluta no pode
ser guia na vida e que devemos contemplando-o, ou renunciar a
esse ideal, dizendo que nos no serve para nada porque no
conseguimos atingi-lo, ou ento baix-lo at ao nvel em que
se mantm a nossa fraqueza. Raciocinar assim  agir como um
navegador que dissesse: Como no posso seguir a direco que
me indica a bssola, vou deit-la fora ou vou deixar de me
guiar por ela, quer dizer abandonarei o meu ideal; ou melhor,
ligarei a agulha da bssola ao lugar que corresponder 
marcha do navio, num movimento dado e assim baixarei o meu
ideal ao nvel da minha fraqueza.
O ideal de perfeio dado por Cristo, no  um sonho, nem
assunto de discurso retrico,  guia necessrio e acessvel a
todos da vida moral dos homens, da mesma maneira que a bssola
 um guia necessrio e acessvel da navegao; somente o que 
necessrio  acreditar tanto num como noutro.
Em qualquer situao que se encontre um homem encontrar
sempre na doutrina crist as directivas mais seguras quanto
aos actos que lhe convm ou no realizar - mas  preciso
acreditar completamente nesses ensinamentos, deixar de
acreditar nos ensinamentos de outras doutrinas, da mesma
maneira que o navegador deve acreditar na bssola, e cessar de
examinar o que v ao lado dele.  necessrio sabermo-nos guiar
com o auxlio da doutrina crist como com o auxlio da bssola
e para isto  preciso antes de mais nada compreender a sua
situao e no temer de determinar com preciso a distncia
que nos separa da direco ideal dada. Em qualquer nvel que
se encontre um homem, h sempre para ele uma possibilidade de
se aproximar deste ideal - e no pode haver para ele situao
em que possa dizer que atingiu o ideal e no possa aspirar a
aproximar-se cada vez mais. Tal  a tendncia do homem para o
ideal cristo em geral e para a castidade em particular.
Se considerarmos, no que diz respeito ao problema sexual, as
mais diferentes situaes (desde a infncia at ao casamento),
nas quais no se observa a continncia, em cada passo, entre
estas duas posies, a doutrina de Cristo e o ideal que nela
se expe servir sempre de guia claro e preciso para o que o
homem deve ou no deve fazer em cada um desses passos.
Como devem proceder um adolescente e uma rapariga pura? Evitar
as tentaes a fim de poder consagrar-se completamente ao
servio de Deus e dos homens, e tender para uma pureza cada
vez maior em pensamento e desejo.
Que devem fazer um adolescente e uma rapariga que
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sucumbiram s tentaes, absorvidos pelo pensamento de um amor
sem objecto, ou de um amor por um ser determinado, e tendo
perdido, de facto uma parte da faculdade de servir a Deus e
aos homens? A mesma coisa: no renovar a queda sabendo que
"deixar ir", longe de os libertar da tentao, no faz mais do
que refor-la, e tender sempre da mesma maneira para uma
pureza cada vez maior a fim de poder servir plenamente Deus e
os homens.
Que devem fazer os que se deixaram vencer nesta luta e que
caram? Considerar a sua queda no como uma alegria legtima,
como se faz agora quando essa queda  absolvida pelo rito do
casamento, nem como prazer acidental que se pode repetir como
outros, nem como uma desgraa quando a queda se consumou com
um ser que no  nosso igual e sem rito, mas considerar esta
primeira queda como a nica, como a concluso de um casamento
indissolvel. O facto de contrair casamento acarretando uma
consequncia: a concepo de filhos, determina para os esposos
uma nova forma mais limitada do servio de Deus e dos homens.
Antes do casamento, o homem, directamente, sob as formas mais
variadas, podia servir a Deus e aos homens; o facto de
contrair casamento reduz o seu raio de aco e obriga-o a
criar e a educar a sua descendncia, composta de futuros
servidores de Deus e dos homens.
Que devem fazer um homem e uma mulher que vivam no casamento,
e completam este servio limitado de Deus e dos homens,
atravs da educao e da instruo dos filhos que derivam da
sua posio?
A mesma coisa: aspirar em conjunto a libertar-se das
tentaes, a purificar-se, a abster-se de pecar, a substituir
as relaes conjugais, que se opem ao servio geral e
particular de Deus e dos homens; substituir o amor carnal
pelas relaes puras de um homem e de uma irm.
 por isso que  falso dizer que no podemos guiar-nos segundo
o ideal de Cristo porque  demasiado elevado, demasiado
perfeito e inacessvel; se no nos podemos guiar segundo o
ideal de Cristo,  unicamente porque mentimos a ns prprios e
nos procuramos enganar.
Com efeito, quando dizemos que temos necessidade de regras
mais praticveis que o ideal de Cristo e que de outro modo,
porque no podemos atingir esse ideal, camos no deboche, no
dizemos que o ideal de Cristo  demasiado elevado para ns mas
somente que no acreditamos na nossa vontade de conformar os
nossos actos com os seus ensinamentos.
Dizendo que uma vez cados, tornaremos a cair no deboche,
dizemos somente que antecipadamente, tnha-
89
ms j decidido que a queda com uma inferior no  um pecado,
mas um divertimento, um arrebatamento que no somos obrigados
a reparar por aquilo a que chamamos casamento. Em
contrapartida, se compreendssemos que a queda  um pecado que
deve ser resgatado e no pode s--lo seno pela
indissolubilidade do casamento e por toda a actividade que
ressalta da educao dos filhos nascidos desse casamento,
da^queda no poderia jamais resultar a recada no deboche. 
exactamente como se um cultivador recusasse o nome de
sementeira s sementeiras que no tivessem resultado e no
chamasse verdadeiras sementeiras, depois de semear vrias
terras, seno s que tivessem germinado.
Visivelmente este homem malbarataria muitas terras e
sementeiras e nunca aprenderia a semear.
Fazei da castidade um ideal, considerai que toda a queda de
quem quer que seja, com quem quer que seja,  um casamento
nico e indissolvel para toda a vida e ser evidente que a
linha de conduta que nos deu Cristo  no s suficiente mas a
nica possvel.
O homem  fraco,  preciso dar-lhe uma tarefa segundo as suas
foras, diz o povo. Isto quer exactamente dizer: os meus
braos so fracos e no posso seguir a linha que deveria ser
direita - isto , a mais curta distncia de um ponto a outro;
contudo, para me consolar, desejando seguir essa linha
directa, vou tomar como modelo uma linha curva ou quebrada.
Quanto mais fraco  o brao, maior  a necessidade de um
modelo perfeito.
Desde que uma vez se compreendeu a doutrina crist do ideal,
no se pode proceder como se a desconhecssemos e substitu-la
por regras exteriores. A doutrina crist do ideal foi revelada
 humanidade precisamente porque pode dirigi-la na idade que
ela agora atingiu. A humanidade ultrapassou o perodo das
regras religiosas exteriores mas ningum acredita nisso. A
doutrina crist do ideal  a nica doutrina capaz de conduzir
a humanidade. No se pode, no se deve substituir o ideal de
Cristo por regras exteriores,  preciso, ao contrrio, manter
firmemente este ideal diante de si, em toda a sua pureza e
sobretudo acreditar. A um homem que navegue perto da margem
poder-se-ia dizer: orienta-te por esta iminncia, por este
cabo, por esta torre, etc. Mas chega o momento em que o
navegador se afasta da margem, onde s os astros so
acessveis e a bssola que lhe indica a direco devem e podem
servir-lhe de guia.
So-nos dados um e outro.
90
NDICE
Captulo I Capitulo II Captulo III Capitulo IV Capitulo V
Capitulo VI Capitulo VII Capitulo VIII Captulo IX Captulo X
Captulo XI Capitulo XII Captulo XIII Captulo XIV Captulo
XV Captulo XVI Captulo XVII Captulo XVIII Captulo XIX
Captulo XX Captulo XXI Capitulo XXII Capitulo XXIII Captulo
XXIV Captulo XXV Capitulo XXVI Capitulo XXVII Captulo XXVIII
POSFCIO
7
11
15
16
18
20
21
22
23
25
26
29
31
34
36
38
41
43
44
47
50
55
57
60
61
66
69
74
77

